sábado, 9 de junho de 2018

O ar que ela respira.


Ela não era deste mundo. Carregava o paraíso e o inferno dentro do corpo. Nasceu numa noite de tempestade, entre sonhos e relâmpagos. Ela era louca. Não o tipo de loucura que te assusta, mas a loucura que te engole, que te faz querer mais.

Onde quer que ela entrasse, todos os olhares ficavam postos nela. Não era por ser a mais bonita, ou por ter curvas invejáveis que desafiavam a gravidade, era por ser quem ela era. Pela energia que emanava, pela luz. Ela era um íman de olhares.

Quem a conhecesse queria levá-la para casa, domesticá-la. Mas ela não se dava a conhecer a qualquer um. Ela era livre. Tão livre, que nos fazia sentir culpados pela liberdade que não tínhamos. Só ficava com quem lhe despertasse a alma, um bicho qualquer adormecido dentro do peito.

Ela não queria um amor pequeno de mais, não gostava de uma one night stand, nem beijava por beijar. Não havia nada de normal nela. Ela queria romances de Hollywood, daqueles que nos fazem vomitar de tão lamechas. E por ela, qualquer um aceitava vestir o papel de príncipe só para conseguir um pouco de atenção.

Ela queria viver no limite entre a sanidade e a loucura, entre o certo e o errado, entre o bem e o mal. Se alguém lhe dissesse que o caminho não estava certo, «que se foda», ela respondia. Pouco lhe importavam as boas maneiras, a delicadeza, o cuidado e a proteção. Ela era dona de si mesma, do seu nariz, do seu umbigo e da sua vida.

Tinha um sorriso fora do comum, um olhar perdido, desenhado no seu rosto de boneca. Era desequilibrada, e sabia-o bem. Mas não ligava.

Fumava um cigarro atrás do outro, enquanto falava e sorria. As mãos tremiam quando se enervava, e calcava um pé sobre o outro quando se envergonhava.

Gostava de chocolate quente e cappuccino, e de «chocolate amargo para combinar com a vida», era o que sempre dizia. Bebia compulsivamente e falava sem parar para respirar, como se se tratasse de uma tentativa desesperada de pôr termo à vida.

Escrevia em qualquer ocasião, carregava sempre cadernos na bolsa. Não era como as outras. A mala desarrumada só se enchia de livros de poesia, canetas roídas e papeis amassados. Ouvia Lana Del Rey o dia todo, repetia sempre os mesmos CD’S mesmo que mais ninguém suportasse as músicas.

Tinha uma queda pelo James Dean, gostava de homens de barba e de espíritos rebeldes. Gostava de conduzir fora dos limites permitidos, e de colocar a mão na janela para sentir os beijos do vento. Gostava de discos de vinil e de máquinas de escrever.

Ela é o talvez na vida dos outros. «Talvez fique», «Talvez me ame», «Talvez amanhã». Nada com ela era certo ou definitivo. Dá-la por garantida era quase como tentar o suicídio. Ela não era de ninguém. Não se apaixonava facilmente. Não se apaixonava por caras ou por corpos. Queria almas.

O desassossego era a sua paixão. Tinha tesão pela vida, pelo que era incomum, por almas fodidas e desabitadas, como se se encaixasse nelas, como se a destruição e a tragédia fossem o seu conforto.

Um dia, tentei beijá-la. Os olhos esbugalhados encaravam os meus. Colocou o dedo indicador sobre os meus lábios e apenas sussurrou, «não mergulhes em areias movediças». Eu perguntava-me se ela me desejava, se o seu coração batia mais descompassado na minha presença, mas ela era de mais para mim. Talvez me tenha amado, antes de descobrir que eu era um tipo perfeitamente normal, tipicamente comum. Ela era o pecado original, e eu nunca tinha pecado.

Um dia, sentados no café, enquanto tirava o maço do bolso, perguntei-lhe, «Então e agora, como ficamos? Não quero perder-te…», «Não se perde o que não se tem» … Ofereceu-me um cigarro que recusei, e continuou, «Na verdade, um dia vou escrever um livro sobre ti».

Depois, depois nunca mais a encontrei. Procurei-a desesperadamente pelas ruas da cidade, qualquer vestígio dela, qualquer sombra… Mas nada! E tudo me recordava dela. Ela era poesia, e com o tempo, compreendi que eu era mais um analfabeto.

Não eram as joias ou as flores que a indrominavam, não eram as palavras de amor, nem um sexo feito. Era a podridão interior.

Ela era só uma miúda perdida, que cresceu sozinha, que em noites frias arranhava o próprio corpo na esperança de sentir algum calor, porque cedo aprendeu, que antes de qualquer amor, o amor mais importante era o dela. Ela procurava a miséria e olhava o vazio, na crença de que um dia chegaria um homem tão miserável como ela, que se encaixaria no seu mundo diferente.

Se eu não a tivesse conhecido, nunca teria acreditado que ainda existiam mulheres como ela, bonitas e selvagens. Com vontade de percorrer o mundo e viver um amor sem sentido. Era o desejo dela. Beijos com sabor a whisky e a cocaína. Abraços apertados. Noites numa cascata a ler poemas e a conversar sobre filosofia. Ela queria dormir de dia, e acordar para tomar o pequeno almoço à noite. Queria tatuagens a combinar. E queria pintar as paredes das ruas com o veneno daquela paixão. Queria promessas de mindinho. Brindes de madrugada. Roupas rasgadas e a cama quebrada.

Sinto falta dela. Do fumo do seu cigarro. Da Lana a tocar sem parar. Sinto falta do ar que ela respira. Quase como se tentasse engolir o mundo todo num trago. Ela não era deste mundo. Ela era arte.

Já se passaram dez anos, desde que a vi a última vez. No outro dia, entrei na livraria, e a escassos metros de mim pairava o nome dela, as prateleiras cheias gritavam. O título era «O homem que eu deixei».

Letícia Brito

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