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terça-feira, 9 de julho de 2019

Sei que me amas, mesmo em silêncio...

Sei que me amas mesmo quando permaneces em silêncio.
Sei que me amas mesmo quando finjo que não.
Sei que me amas mesmo quando os dias parecem todos iguais.
Às vezes, baixo a cabeça, encolho-me e abraço-me a mim própria, como se o mundo lá fora não tivesse nada de bonito para me oferecer. 
Às vezes, arranho as paredes e a minha pele, na esperança de sentir qualquer coisa, qualquer coisa que não seja a dor que me consome por dentro, a dor de não saber bem quem sou ou sequer para onde vou.
Mas apesar de tudo sei que me amas e saber disso é o bastante. 
Sei que amas mesmo quando bato portas e grito que vou embora. Sei que me amas mesmo quando choro como um bebé desamparado e repudio o mundo em meu redor. Sei que amas mesmo quando me ouves soluçar que penso em morrer todos os dias, e isto até poderia soar poético se não fosse verdade. 
Mas tu permaneces.
Seguras-me.
Agarras-me pelos ombros e agitas-me até que me cale.
Fazes-me engolir cada palavra mal dita e fazes-me sentir nojo de cada pensamento estúpido que me invade, uma ou outra hora.
Quando isso acontece sei porque me amas e sei porque é que apesar de pensar em morrer todos os dias, ainda aqui estou.
Oxalá, todos os loucos como eu, tivessem alguém suficientemente corajoso para amar as suas loucuras, talvez esses não desistissem, talvez o mundo estivesse cheio de pessoas felizes ao invés da tristeza que corre pelas ruas desenfreada. 
Sei que me amas mesmo quando estás em silêncio. 
Sei que o teu silêncio é amor. 
Que no silêncio nos amamos e nos encontramos. 
Que é nesse teu silêncio que as palavras se soltam de formas que eu desconhecia, transbordando, clamando ao meu coração.
Obrigada, amor, pelos teus silêncios. 
Que às vezes não compreendo, mas que são sempre tão certos.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

E eu?


Andamos todos à procura do mesmo. Queremos o nosso lugar ao sol. Queremos desfrutar dos prazeres da vida. Queremos ser felizes. Negá-lo é quase como negar a nossa existência.

Não importa a nossa altura, as roupas que vestimos, os nossos estudos ou a nossa profissão. Não importam os rótulos que nos impõem ou o estatuto que adquirimos.

Apesar de sermos todos diferentes, todos temos fome do mesmo. Fome de felicidade.

Às vezes, no entanto, na pressa de chegarmos mais longe, batemos de frente uns com os outros. Atropelamo-nos. Esbarramo-nos.

Ficamos fulos da vida com quem atravessa o nosso caminho e torna a nossa felicidade, num lugar distante, que nem sabemos se conseguiremos alcançar. Esperneamos. Choramos. Estávamos lá primeiro. Os outros não têm o direito de nos atropelarem. De nos roubarem.

E eu? – perguntamos. – O que é feito de mim e da minha luta?

Queremos reivindicar os nossos direitos. Culpamos o outro. Mas se todos queremos o mesmo? E lutamos pelo mesmo? Até que ponto, podemos culpar o outro pelas nossas quedas?

O outro também está a correr pela sua felicidade. Não o podemos julgar. Quantas pessoas já demoraram a chegar ao seu destino, porque as atropelamos, mesmo sem sabermos? Tantas…

Culpar o outro é o álibi perfeito. Permite que nos ilibemos da nossa própria culpa. É tão mais simples fazer do outro, o bode expiatório, do que aceitar que as nossas quedas estão quase sempre relacionadas com as nossas escolhas.

O outro pode dizer-nos qual o caminho a seguir. Pode empurrar-nos. Esbarrar em nós. Mas somos nós que escolhemos a direção. São decisões somente nossas, e é injusto culpar os outros.

Culpabilizar quem nos rodeia por cada tropeço nosso, é a nossa condenação. Estamos tão cegos pela nossa fome de viver e sermos felizes, que não somos capazes de aceitar que o outro também corre esfomeado.

Queremos ser felizes. É legitimo. Precisamos lutar. Às vezes fazemos coisas que julgávamos impossíveis. Às vezes corremos desesperadamente por entre o fogo. Às vezes magoamos os outros na tentativa de alcançar a felicidade que acreditamos merecer.

O mais triste é que a felicidade não é o fim da meta, a felicidade é a corrida. A felicidade não é um troféu que vamos exibir no final. A felicidade está no caminho. No presente. No momento. No agora.

Não culpemos os outros por procurarem a sua felicidade, eles, assim como nós, também ainda não sabem que a felicidade não é um prémio que se ganha depois de tudo, a felicidade está nas pequenas alegrias que vamos vivendo, distraídos de mais, para entendermos que ela é uma constante da vida.

Letícia Brito


quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Amores da adolescência

De repente, voltamos o rosto na direção oposta, na certeza de termos escutado aquela voz, que por mais anos que passem, sempre será familiar. 

Somos acometidos por uma espécie de loucura, que nos desassossega. 

Sentimos aquele cheiro tão característico, que em tempos também se entranhou na nossa pele, também se fundiu em nós. 

Mas já somos crescidos. Já não gostamos do que gostávamos antes. Já não ouvimos aquelas músicas. Já nem pensamos sobre o que passou. E ainda assim, o nosso coração sente-se uma eterna criança, quando confrontado com quem o marca. 

Há amores que não duram para sempre. Que estão condenados desde o início. Há amores que prolongamos, apenas porque temos medo do que virá depois. Há amores que nos transformam e que nos fazem questionar, se depois do fim, valerá a pena nos apaixonarmos outra vez? 

O certo é que acontece. O coração fecha as feridas, faz as malas e vai embora. Parte para muito longe da vida de quem não quis ficar na nossa vida. Revigoramo-nos. Recomeçamos. E de repente, lá está a voz. 

A gargalhada profunda do outro lado da rua, a fazer-nos voltar o rosto, procurando aquele de que provém. Não é sobre o amor. Mas todos, ainda que de um modo inconsciente, quando ficamos frente a frente com o passado, sentimos necessidade de mostrarmos que estamos bem. 

Vês, vês, que eu segui sem ti. Não é sequer sobre imaturidade, é apenas uma pulguita que fica, que faz ninho na nossa alma. Que nos faz sentir que o outro tem de ver que estamos melhor, que superamos, que encontramos outro amor. 

Há amores que não duram para sempre, mas ainda assim, ficam em nós para sempre. Deixam de ser amores, tornam-se outra coisa qualquer, que fica em nós para sempre. Como um lembrete daquilo que um dia fomos e desejávamos ser. Como um lembrete de que somos capazes de seguir em frente, recuperar e amar mais uma vez. 

São amores preciosos, esses que nos fazem sofrer. Esses da adolescência. São eles que nos preparam para a vida adulta. São eles que nos mostram que há vida para além do amor. São eles que nos ensinam a perder e a ganhar de novo. 

Louvados sejam todos que nos partem o coração, dando-nos a oportunidade de encontrarmos aquele que nos estava destinado.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Caixinha de Surpresas

As pessoas são caixinhas de surpresas. Nunca sabemos com o que contamos. À superfície, todas parecem iguais. Algumas mais calmas. Outras mais intempestivas. No entanto, por debaixo da pele, há segredos que desconhecemos. Histórias que nunca foram contadas. Gritos que foram calados. Sonhos que foram assassinados. Há dores que nem imaginamos. Outras que julgamos conhecer. Há amores que o tempo fortaleceu. E outros tantos que caminharam sobre a linha delicada entre a mágoa e o esquecimento. Tantos refúgios que habitam debaixo da pele. Lugares que não mostramos a ninguém. Lugares de acesso restrito. Alguns lugares, guardados para quem amamos. Às vezes, como uma borboleta que se vai soltando do casulo, também nós, vamos abrindo o peito, rasgando a pele e expondo os demónios e os anjos que nos habitam por dentro. Mas nunca permitimos a metamorfose completa, por medo dos olhares alheios, dos julgamentos daqueles que nem sequer nos conhecem, por vergonha, culpa, ressentimento. Tantas vezes. Há tanto que o mundo precisa de ver e conhecer, mas escondemos. Às vezes, não somos aquilo que as pessoas esperam de nós, somos presentes que elas desembrulham e pelos quais nem esperavam, presentes aos quais torcem o nariz e agradecem por obrigação. Às vezes, somos a sorte grande, o totoloto - não literalmente, não no sentido pejorativo - somos o que o outro tanto procurou, somos o sonho tornado real. É que embora sejamos iguais à superfície, debaixo da pele somos pólos magnéticos opostos. Não existem duas pessoas iguais. E a beleza das relações - sejam elas amorosas, de amizade, entre pais e filhos ou irmãos - está no facto de duas pessoas diferentes, serem capazes de se encaixarem, de fazerem dos pontos negativos que os separam, a ponte que os une, que os completa. 

sábado, 6 de outubro de 2018

Ronaldo e Mayorga: a saga dos santos e pecadores



Cristiano Ronaldo está a ser alvo de acusações de violação, num caso que remonta às férias loucas em Las Vegas no ano de 2009. A presumível vítima é Kathryn Mayorga, uma professora, na altura aspirante a modelo, que em entrevista à revista Der Spiegel, contou os detalhes sórdidos do abuso. Kathryn terá assinado um contrato e recebido uma grande quantia para se manter em silêncio, mas segundo a entrevista que deu, nunca mais foi feliz, entrou em depressão e mobilizada pelo movimento #metoo que tem desvendado os podres mais negros das celebridades, decidiu assumir o nome do suposto violador.
Inicialmente, o craque português surgiu nas redes sociais a desmentir o sucedido, dizendo que estavam apenas a tentar promover-se através do seu nome e tudo não passariam de fake news, vídeo posteriormente apagado da sua conta de Instagram, mas que já circula em toda a internet. Entretanto, mais uma vez, o craque defendeu-se e assumiu que se envolveu com Kathryn mas a relação intima fora consentida.
O zé-povinho logo saiu em defesa do CR7, como era de esperar. Numa sociedade de santos e pecadores, Ronaldo pertence, sem dúvida, ao primeiro grupo, assim acreditam os populares. Quando abrimos as redes sociais, somos confrontados com comentários de todo o género, a maioria afirma que a vítima do abuso está, de facto, a fazer falsas acusações, porque afinal, aceitou dinheiro para se calar, o que não a tornaria assim tão vitima. No entanto, a provar-se o abuso, que está agora a ser investigado pela polícia de Las Vegas, será que o dinheiro que Kathryn terá recebido desculpabiliza a atitude repugnante de Cristiano Ronaldo? Cerca de 320 mil euros, é esse o preço da dignidade de uma mulher?
Há quem diga que o craque pode ter quantas mulheres quiser, porque haveria de violar alguma? Mas, por essa ordem de ideias, os outros violadores também poderiam ter as mulheres que quisessem, o que os leva então a cometer tal ato desprovido de humanidade?
A verdade é que todos saem em defesa do jogador, no entanto, se o protagonista deste caso fosse um homem desconhecido que não tivesse onde cair morto, o povo iria linchá-lo em praça pública. Estará Kathryn a mentir? Não se sabe, contudo, sabe-se que Cristiano por ser O Cristiano está a ser desculpabilizado, protegido e idolatrado pelo povo.
Desculpar o violador porque a gaja subiu ao quarto por livre vontade é o mesmo que desculpar o ladrão que rouba a casa porque o dono se esqueceu de fechar a porta. Estavam mesmo a pedi-las. (ironia) Mas, na verdade, são estes os comentários de homens e mulheres na internet - parecem todos puritanos - acusam Mayorga de ser uma vil chantagista e Ronaldo de ser o melhor do mundo, uma boa pessoa, de carácter - como se privassem com ele diariamente para o afirmarem - e de não cometer tais atos propagados por Kathryn.
Eu não tenho uma opinião formada. Só desejo que a verdade seja alcançada e a justiça seja feita, caso se justifique. Mas, sempre duvidei que o Cristiano Ronaldo se envolvesse amorosamente e sexualmente com mulheres – afinal, tem recorrido desde sempre a barrigas de aluguer, à exceção da Gio, mas isso é um assunto para outro dia - o que torna mais difícil levar a sério o presumível abuso.
Que seja apurada a verdade é o que todos desejamos. A ser provado o abuso, que o craque português arque com as consequências. A ser provada a mentira de Kathryn, que também ela arque com as consequências.

domingo, 5 de agosto de 2018

O amor não é um rótulo.


Sempre que amámos acreditamos que é para sempre, que é o amor de verdade, o amor que nos salva, o amor que nos sacia a fome da alma. 

Mas o amor não funciona desse jeito. O amor não se define pela quantidade de anos que vives com uma pessoa, mas sim pela qualidade desses anos. Há amores pequenos, efetivamente, que valem por anos de amores que prolongamos no tempo. Assim como há amores grandes que valem menos do que amores que só duraram um momento.

Isto, porque o amor não é caracterizado pelo tempo que vive, mas pelo que é partilhado nesse tempo, pela entrega, pelos segredos, pelo desejo, pela união, pela paixão desmedida. São esses sentimentos que determinam a intensidade do amor, contrariamente a tudo o que sempre se ouviu dizer sobre o amor.

É claro que há amores que duram para sempre, que são infinitos, que o tempo não rouba e que nem a morte separa. É claro que há amores que salvam, que sustentam o ser, que servem de base à nossa existência.

Mas para que o amor viva é preciso que o alimentem, que o cuidem, que o guardem. Para que o amor se fortaleça é preciso que o tornem mais forte, mais sólido, que invistam nele. Diariamente. Há quem veja o amor como uma sombra, onde se refastela e descansa. Há quem veja o amor como um abrigo em tempos de cólera. E são pessoas assim que o torturam, que o condenam, que o matam.

Tal como alimentamos o gato diariamente, também precisamos de alimentar o amor. De lhe oferecer as ferramentas para que possa crescer feliz e viver por longos anos ou até a vida deixar de ser vida.

O amor é muito semelhante a uma vela, se não prestarmos atenção à vela, se deixarmos as janelas abertas ao Deus-Dará, eventualmente, uma rajada de vento irá apagá-la. O amor é uma vela cuja chama precisa de ser mantida acesa por tempo indeterminado. Só assim resiste. Só assim é amor.

Não é um contrato ao qual possamos rescindir. Não é uma mensagem que podemos apagar. É um sentimento que só pode viver, se tivermos a coragem de lhe darmos a nossa força, o nosso melhor.

Não é longo nem é curto. Não é grande nem é pequeno. Não pode viver de rótulos. Não pode viver de palavras nem de dúvidas. Precisa de ações. Precisa de certezas. Precisa de nós.

Letícia Brito

Casamento da Alma


A maioria das pessoas não compreendeu ainda o que é o casamento. Por ingenuidade, por falta de atenção ou mesmo irresponsabilidade. 

Não compreendem. Confundem o casamento com um papel e duas alianças, quando o casamento não é material, nem se assina. É uma coisa de almas.

É quando duas pessoas se amam tanto ao ponto de permitirem que as suas almas se fundam uma na outra, se entranhem. Debaixo da carne, da pele e dos ossos. Dentro do peito. Além do infinito. Isso é o casamento.

Grande parte das pessoas casa somente uma vez. Casam no dia em que marcaram no notário. Casam porque é verão e porque o bom tempo já chegou, garantindo que as roupas pimponas poderão ser usadas sem restrições. Casam porque gostam de festas. Casam porque têm dinheiro. E porque lá conseguiram arranjar uma quinta com piscina disponível e a bom preço.

Partem uma semana de férias para Palma de Maiorca e quando regressam já estão divorciados emocionalmente. Isto, porque se esquecem de casar nos dias seguintes. Porque se esquecem daquilo que o casamento representa. Mais do que a boda, as prendas e o fogo de artificio. O casamento precisa de alimento assim como o amor.

Não basta casar no dia x, é preciso casar em todos os outros. Sobretudo, nos dias menos bons. Esquecem-se de casar no dia em que chegam tarde do trabalho. Esquecem-se de casar no dia em que a conta da água foi maior. Esquecem-se de casar no mês em que o dinheiro foi escasso. Esquecem-se de casar quando o carro avaria e quando os filhos adoecem.

Esquecem-se do outro. Do juramento de fidelidade, amor e entrega que fizeram no início de tudo. O outro chora e nós resmungamos. Nós choramos e o outro não nos compreende.

Não se pode casar só uma vez, é preciso ter noção de que o casamento requer esforço mútuo, entrega total e paixão desmedida. Se irão existir dias maus? Pois, claro que sim. Mas esses dias maus não podem ser motivo para que os pares se afastem, se retraiam, e evitem qualquer contacto. Às vezes, as pessoas vivem o casamento num constante processo de divórcio. Não o formalizam. Nem sequer se apercebem. Somente quando já é tarde, quando não há solução, quando tudo o que havia para dar, já foi dado e dado e dado.

Acredito no amor e no casamento. No casamento da alma. Quando expurgarmos qualquer sentimento menos agradável em prol do amor e do outro. Quando afastamos a dor e a raiva. Quando exterminamos a frustração e a impotência. Quando há entrega e partilha.

O amor não é uma obrigação, não é um contrato nem carece de nada exterior para subsistir, além de nós mesmos. Da nossa dedicação. Da nossa união. Da nossa força.

O casamento não pode ser visto como uma forma de manter o amor, porque o casamento é o próprio amor. Há pessoas que vivem até ao último suspiro, unidas e apaixonadas, fiéis ao outro e a si mesmas, sem que nunca tenham formalizado o que quer que seja. E, no entanto, há pessoas que vivem na mesma casa toda uma vida, e separadas até ao último suspiro. Emocionalmente divorciadas. Infelizes.

O casamento só faz sentido se as pessoas se dispuserem a casar até ao fim. Diariamente. Sem medos. Com a certeza de que haverá dias maus, mas que esses dias maus, não poderão anular o que há do lado de dentro. Jamais.

Não é um contrato que define o casamento ou o amor. É a alma. A união das almas. As almas que se fundem uma na outra.

Letícia Brito

sábado, 23 de junho de 2018

«corno que sabe e consente, bem haja quem no acrescente»


Algumas pessoas afastaram-se. Outras deixaram de falar comigo. E eu? Poderia sofrer com isso. Mas «quando a vida nos dá limões, nós fazemos limonada», é o que dizem, portanto, quando as pessoas se aproximam da porta da minha vida, e ficam num impasse... Não sei se fico. Não sei se me vou. Eu prefiro ajudá-las, dando-lhes um empurrãozinho para fora. Se elas não sabem tomar uma decisão, e se a nossa amizade é tão fraca ao ponto delas ponderarem ir ou ficar, eu acredito que mais vale irem-se de vez. Mais vale. Do que ficarem à porta a interromperem o tráfego. Que deixem o espaço livre para que entre quem realmente importa. Que desapareçam. Que fiquem somente na memória. E até na memória, ocupam demasiado espaço. Espaço que não merecem.
As pessoas traem, criticam-se pelas costas, e bajulam-se na cara. Vivem de mesquinhice, de «amorzinho» para aqui e para acolá só para inglês ver. Ou só para os amigos do Facebook verem. Que isto das pessoas se mostrarem online tem muito que se lhe diga. Partilham post's sobre falsidade, mas comem-na ao pequeno-almoço como se fosse leite com cereais.
Há um provérbio muito engraçado, «corno que sabe e consente, bem haja quem no acrescente», é sobre adultério, mas serve também para as pseudo-amizades.
Se temos pessoas na nossa vida, que falam mal de nós, nos criticam e apunhalam, das quais estamos cientes, então, se não as expulsamos, não podemos sofrer com o que fazem. Merecemos, até. Merecemos continuar a ser enganados e maltratados.
Pelo menos, até que tenhamos a capacidade de os mandar dar um passeio.

Letícia Brito

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Amigo das ausências.


Todos temos o nosso amigo das ausências. E o que é pior do que um inimigo declarado do que aquele que se diz amigo, mas só nos brinda com a sua ausência? Como é suposto construirmos algo sólido sobre ausências? Como se resgata o afeto das ausências?

É amigo o raio que o parta!

Têm sempre uma desculpa na ponta da língua. Justificam as ausências com a distância, o trabalho, os filhos e o funeral do gato. Não respondem às mensagens, mas estão sempre online no Facebook e publicam ativamente no Instagram. Quebram promessas antigas. Faltam aos encontros marcados. «Hoje trabalhei até tarde, não consegui estar presente».

Usam as desculpas como um míope usa óculos de grau para conseguir ver melhor. São dependentes de argumentos parvos para se escaparem às nossas intervenções.

Será que nós não merecemos um pouquinho do esforço dessas pessoas? Cinco minutos do seu tempo? Um café rápido a seguir ao almoço?

Será que requerer a sua presença em momentos importantes, faz de nós egoístas? Será que somos assim tão desinteressantes e pouco importantes para que a consciência não lhes pese? E a saudade não lhes bata à porta?

O amigo das ausências raramente te procura, te telefona ou envia mensagem. Mas repara quando te afastas. Ofende-se quando não lhe respondes. Repreende-te quando não o procuras. Porque o amigo das ausências vive para ignorar, mas não aceita que lhe façam o mesmo.

Não queremos que façam tudo por nós. Que se esfolem. Que inventem desculpas para saírem mais cedo do trabalho. Não queremos que estejam sempre à nossa espera ou com a mão pronta para atender o telefone. Não lhe exigimos mais do que podem dar. Apenas o essencial para que mereçam o título de amigos na nossa vida. Não é egoísta da nossa parte, embora, com os seus discursos idiotas e a falsa moralidade, nos digam que somos dependentes, que precisamos entender o quão são ocupados e os esforços que (não) fazem para estarem por perto.

Não os queremos o tempo todo. Às vezes, só precisamos de cinco minutos. De uma esplanada e um café, e dois dedos de conversa. Desabafar. Contar-lhes a nossa vida. Que vão para o raio que os parta, esses pulhas. Ainda se questionam por que razão as crianças mantêm amigos imaginários? Porque esses jamais os desiludem.

Letícia Brito

sábado, 9 de junho de 2018

O ar que ela respira.


Ela não era deste mundo. Carregava o paraíso e o inferno dentro do corpo. Nasceu numa noite de tempestade, entre sonhos e relâmpagos. Ela era louca. Não o tipo de loucura que te assusta, mas a loucura que te engole, que te faz querer mais.

Onde quer que ela entrasse, todos os olhares ficavam postos nela. Não era por ser a mais bonita, ou por ter curvas invejáveis que desafiavam a gravidade, era por ser quem ela era. Pela energia que emanava, pela luz. Ela era um íman de olhares.

Quem a conhecesse queria levá-la para casa, domesticá-la. Mas ela não se dava a conhecer a qualquer um. Ela era livre. Tão livre, que nos fazia sentir culpados pela liberdade que não tínhamos. Só ficava com quem lhe despertasse a alma, um bicho qualquer adormecido dentro do peito.

Ela não queria um amor pequeno de mais, não gostava de uma one night stand, nem beijava por beijar. Não havia nada de normal nela. Ela queria romances de Hollywood, daqueles que nos fazem vomitar de tão lamechas. E por ela, qualquer um aceitava vestir o papel de príncipe só para conseguir um pouco de atenção.

Ela queria viver no limite entre a sanidade e a loucura, entre o certo e o errado, entre o bem e o mal. Se alguém lhe dissesse que o caminho não estava certo, «que se foda», ela respondia. Pouco lhe importavam as boas maneiras, a delicadeza, o cuidado e a proteção. Ela era dona de si mesma, do seu nariz, do seu umbigo e da sua vida.

Tinha um sorriso fora do comum, um olhar perdido, desenhado no seu rosto de boneca. Era desequilibrada, e sabia-o bem. Mas não ligava.

Fumava um cigarro atrás do outro, enquanto falava e sorria. As mãos tremiam quando se enervava, e calcava um pé sobre o outro quando se envergonhava.

Gostava de chocolate quente e cappuccino, e de «chocolate amargo para combinar com a vida», era o que sempre dizia. Bebia compulsivamente e falava sem parar para respirar, como se se tratasse de uma tentativa desesperada de pôr termo à vida.

Escrevia em qualquer ocasião, carregava sempre cadernos na bolsa. Não era como as outras. A mala desarrumada só se enchia de livros de poesia, canetas roídas e papeis amassados. Ouvia Lana Del Rey o dia todo, repetia sempre os mesmos CD’S mesmo que mais ninguém suportasse as músicas.

Tinha uma queda pelo James Dean, gostava de homens de barba e de espíritos rebeldes. Gostava de conduzir fora dos limites permitidos, e de colocar a mão na janela para sentir os beijos do vento. Gostava de discos de vinil e de máquinas de escrever.

Ela é o talvez na vida dos outros. «Talvez fique», «Talvez me ame», «Talvez amanhã». Nada com ela era certo ou definitivo. Dá-la por garantida era quase como tentar o suicídio. Ela não era de ninguém. Não se apaixonava facilmente. Não se apaixonava por caras ou por corpos. Queria almas.

O desassossego era a sua paixão. Tinha tesão pela vida, pelo que era incomum, por almas fodidas e desabitadas, como se se encaixasse nelas, como se a destruição e a tragédia fossem o seu conforto.

Um dia, tentei beijá-la. Os olhos esbugalhados encaravam os meus. Colocou o dedo indicador sobre os meus lábios e apenas sussurrou, «não mergulhes em areias movediças». Eu perguntava-me se ela me desejava, se o seu coração batia mais descompassado na minha presença, mas ela era de mais para mim. Talvez me tenha amado, antes de descobrir que eu era um tipo perfeitamente normal, tipicamente comum. Ela era o pecado original, e eu nunca tinha pecado.

Um dia, sentados no café, enquanto tirava o maço do bolso, perguntei-lhe, «Então e agora, como ficamos? Não quero perder-te…», «Não se perde o que não se tem» … Ofereceu-me um cigarro que recusei, e continuou, «Na verdade, um dia vou escrever um livro sobre ti».

Depois, depois nunca mais a encontrei. Procurei-a desesperadamente pelas ruas da cidade, qualquer vestígio dela, qualquer sombra… Mas nada! E tudo me recordava dela. Ela era poesia, e com o tempo, compreendi que eu era mais um analfabeto.

Não eram as joias ou as flores que a indrominavam, não eram as palavras de amor, nem um sexo feito. Era a podridão interior.

Ela era só uma miúda perdida, que cresceu sozinha, que em noites frias arranhava o próprio corpo na esperança de sentir algum calor, porque cedo aprendeu, que antes de qualquer amor, o amor mais importante era o dela. Ela procurava a miséria e olhava o vazio, na crença de que um dia chegaria um homem tão miserável como ela, que se encaixaria no seu mundo diferente.

Se eu não a tivesse conhecido, nunca teria acreditado que ainda existiam mulheres como ela, bonitas e selvagens. Com vontade de percorrer o mundo e viver um amor sem sentido. Era o desejo dela. Beijos com sabor a whisky e a cocaína. Abraços apertados. Noites numa cascata a ler poemas e a conversar sobre filosofia. Ela queria dormir de dia, e acordar para tomar o pequeno almoço à noite. Queria tatuagens a combinar. E queria pintar as paredes das ruas com o veneno daquela paixão. Queria promessas de mindinho. Brindes de madrugada. Roupas rasgadas e a cama quebrada.

Sinto falta dela. Do fumo do seu cigarro. Da Lana a tocar sem parar. Sinto falta do ar que ela respira. Quase como se tentasse engolir o mundo todo num trago. Ela não era deste mundo. Ela era arte.

Já se passaram dez anos, desde que a vi a última vez. No outro dia, entrei na livraria, e a escassos metros de mim pairava o nome dela, as prateleiras cheias gritavam. O título era «O homem que eu deixei».

Letícia Brito

A mulher que eu já não conheço


Querias desesperadamente mudar o mundo!

Não suportavas as injustiças, não conseguias ver uma discussão na rua que já querias aplacar todos ao teu redor, não podias ver um mendigo com uma criança nos braços, que todo o teu dinheiro lhe deixavas sem tampouco ponderar. 

Eu admirava-te. Admirava a tua força, a tua coragem, a tua resiliência. Admirava a capacidade que tinhas em acreditar em dias melhores, em justiça e em paz. Abominavas a guerra. Eras feminista. Não permitias que nenhuma mulher fosse insultada ou assediada na tua presença. 

Gostavas de causas humanitárias. Gostavas de ajudar o próximo. Querias cuidar de todos. 

Querias desesperadamente mudar o mundo. Foste esquecendo a vida dentro das nossas quatro paredes. Nós não existíamos, havia sempre alguém mais necessitado de carinho, alguém a quem a fome precisava ser saciada, alguma marcha a favor dos direitos humanos na qual devias participar. Deixaste de viver para ti. O mundo precisava de ti. Tu não precisavas de mais nada. 

Deixamos de conversar. Mesmo quando dormíamos lado a lado, eu sentia um vazio enorme no meu peito, e nem todo o calor do teu corpo aquecia o que em mim, tu havias gelado. Deixaste de sonhar. De fazer planos. Nunca mais falaste na aliança. Nunca mais pensaste em crianças. 

Tínhamos um jardim enorme, onde eu comecei a plantar a solidão e a tua ausência. Tu deixaste de regar o nosso jardim. 

Um dia, fizeste as malas. Disseste algumas palavras, não me recordo delas sequer. Irias partir em missão. Não sei se ficaste de voltar, mas nunca mais te vi chegar. Nunca mais. Deves ter dito que já não me amavas, antes de fechar a porta, mas eu só conseguia ouvir o meu coração a partir-se, e esse som abafou todo o resto. Deixei-te partir. 

Não lutei. Não chorei. Afinal, eras apenas uma pessoa que eu costumava conhecer, tornaste-te a mulher que eu já não conheço.

Às vezes sinto saudades tuas, e da tua energia, da tua vontade desesperada de mudar. Não foste capaz de exterminar a fome do mundo, mas deixaste o meu peito morrer pela fome de ti.

Letícia Brito

Os três estágios do amor


A nossa definição de amor vai-se alterando à medida que vamos crescendo e nos tornando mais maduros. É como se precisássemos passar por vários estágios do amor, para alcançar o amor maior, o amor verdadeiro, aquele pelo qual valeria a pena virar o mundo do avesso. Os estágios são três, geralmente. O amor não-correspondido na pré-adolescência. O amor tóxico pelo meio e o fim da adolescência. E o amor verdadeiro no inicio da idade adulta.

Quando somos novos, somos facilmente enganados pelo coração. Acreditamos que o mínimo gesto de carinho já pode ser amor, e deixamo-nos consumir por essa ilusão. Às vezes, o amor nem tampouco é correspondido, mas idolatramos o outro como se a nossa vida dependesse disso.

Na verdade, esse tipo de amor é dos mais bonitos, amámos sem esperarmos ser amados de volta, e nada é mais puro do que um amor que dá sem querer receber.

Mas depois, vamos crescendo e percebendo que aquilo nem era amor, sequer. Era qualquer espécie de sentimento bonito que germinou dentro de nós, mas não tinha a total forma do amor.

Então, alguém chega e nos faz ver o mundo por outra perspetiva, através dos seus olhos. Caímos na tentação de sermos diferentes, de mudarmos para agradar ao outro, cruzamos linhas delicadas, caminhamos por estradas forjadas a ferro quente, permitimos que o outro nos faça o peito em dois, consumindo até a nossa auto estima.

Esse é o amor tóxico. O amor que nos impulsiona a voar, para nos roubar as asas e deixar cair logo depois. O outro lucra com a nossa dor. Gosta de nos ver definhar, de nos ter na mão, de nos usar a bel-prazer.

O amor tóxico é doloroso, cruel. Arruína as nossas músicas preferidas. Faz-nos colocar dois dedos na garganta, na esperança de vomitarmos a mágoa que nos vai torturando por dentro. Corta-nos as pernas. Torna-nos dependentes.

É um amor que mistura o perigo e o desejo, parece até ser tudo o que idealizávamos. Há algo de poético em morrer por amor, é por isso, que todos gostamos de viver um amor tão inconstante. Certamente, um amor assim renderá as músicas top's das tabelas, livros que são best-sellers imediatos, e filmes que esgotam bilheteiras. Isto, porque são a melhor forma de amor impossível. Torna-se um ciclo vicioso do qual queremos fugir, só não o fazemos pelos momentos bons, pela aventura e pela adrenalina que este amor nos proporciona, mas é sabido que não se pode ter sol na eira e chuva no nabal.

Choramos tanto, que a dado momento, achamos que aquilo é tudo o que conseguiremos da vida; um amor sofrido, que nos faz penar, e repudiar a sua existência, na mesma medida, em que nos excita sempre que nos toca. Mas um amor tóxico não é um amor para ser vivido a tempo integral. Podemos sofrer durante anos até que a vida nos desperte para a realidade. Porém, sempre acordamos, ainda que tarde. Porque por mais poético e bonito que pareça, é a cena mais fodida de sempre. Deixa-nos com marcas corpo a baixo, e feridas emocionais que vão latejar nos dias mais frios.

Depois, num dia como outro qualquer, em que já não esperamos por nada, chega ele, por fim. O amor maior. O verdadeiro. Aquele que se molda a nós para se encaixar no nosso peito. Um amor que nos traz paz, calmaria… Que ensina o nosso coração a confiar e a ser paciente. Que nos ensina a ter fé e a depositar esperança em dias melhores.

O amor maior chega sempre sem aviso prévio, e é mágico! Tem a capacidade de nos fazer acreditar de novo em finais felizes. Devolve-nos a liberdade. Devolve-nos o sorriso. Ensina-nos a sonhar outra vez. Faz-nos voar e segura-nos sempre, o mais que pode. Cura as feridas, arruma o lixo do passado, e deixa-nos espaço para sentir novamente apenas coisas boas. Somente nos faz chorar se for de felicidade.

Este amor rende-nos os poemas mais bonitos e sinceros. Não nos dá apenas as estrelas, dá-nos toda a imensidão do céu. É o amor certo. O amor pelo qual vale a pena enfrentar os nossos medos e demónios. Na verdade, é o amor mais corajoso que nos habita. É um amor seguro, que nos protege, que nos sacia, que nos ensina e que nos faz alguém melhor.

É assim que se sabe que encontramos o amor verdadeiro, quando queremos melhorar. Não apenas mudar, mas melhorar. Qualquer pessoa que nos torne melhores é uma pessoa que devemos manter na nossa vida.

Percebemos que até então, tínhamos falhado em todas as definições de amor. Mas uma certeza teremos sempre, é preciso passar por todos os níveis, para vencer o jogo. É preciso perder algumas vezes, desistir até de jogar, para sermos capazes de ultrapassar todas as fases dolorosas, de modo, a alcançarmos o amor definitivo.

A caminhada não é, de todo, em vão. Embora, em diversos momentos, nos pareça descabida, é o caminho que nos leva ao destino que nem imaginávamos que era nosso.

O amor vale a pena. Todas as suas estradas tortuosas e inusitadas. Todas as lombas e cicatrizes que nos vai deixando. O amor vale a pena. Vale a pena ser vivido na sua plenitude. Pode tardar, mas sempre chega. Sempre.

Letícia Brito

terça-feira, 22 de maio de 2018

Quem guarda o amor?


As relações começam e acabam pelos mais diversos bonitos, a toda a hora, e é algo que não podemos controlar. Mas o amor nunca acaba. Então quem fica com o amor quando acaba a relação?

Alguém tem de guardar o amor, alguém tem de o manter, de o cuidar, mesmo depois do fim. Porque o amor não é um objeto, não podemos simplesmente ignorar a sua existência. Podemos maltratar o amor, mas não podemos largar-lhe a mão e esperar que parta sozinho.

Às vezes, as pessoas não são fortes o suficiente para manterem as suas relações, e as relações terminam apesar do amor, mas nunca pela falta dele, porque de cada vez que amámos, é para sempre. Então se o amor não acaba, quem o guarda?

As pessoas apagam o número de telemóvel, rasgam as fotografias e colocam as músicas numa playlist triste que só voltam a escutar quando estão demasiado deprimidas, mas não se esquecem, não podem simplesmente dizer que não amam mais porque amam para sempre. Só que o tempo acaba por tirar o amor da vista, vamos esquecendo os seus traços, e quando damos por nós já não sabemos a que sabe o amor. Sabe a qualquer coisa que fica adormecida numa cama que preferimos não deitar. Sabe a qualquer coisa esquecida que nem queremos voltar a lembrar.

Cada amor é único, excecional. Alguns amores são maiores que outros. Há os amores de conto de fadas e há os amores pautados pela solidão, há os amores não correspondidos e os amores incompreendidos, há os amores que se escondem e há os que gostam de se mostrar, mas não há amores que acabam. Há, pelo contrário, pessoas que vão esquecendo, que o vão impedindo de respirar dentro de si, até que não reste mais nada, além do pó do que um dia foi o amor.

Não podemos apenas matar um sentimento que brota em nós de modo tão puro, é contra a natureza do amor, no máximo dos máximos, podemos fingir que já não nos diz nada, que já não ligamos, nem queremos saber, mas nunca, jamais, de modo algum, matá-lo. O amor não morre.

Nós aprendemos a refazer a nossa vida apesar do amor, aprendemos a amar outra pessoa apesar do amor, aprendemos a seguir em frente apesar do amor. Pela falta dele? Jamais, não me tentem enganar.

Quando as relações acabam, acredito que alguém tenha de ficar responsável pelo amor, quase como num divórcio, o amor é o filho cuja custódia precisa ser partilhada.

Quando as relações acabam, arranjamos um T0 no nosso coração, no lugar mais remoto possível, preferencialmente, numa montanha demasiado alta, para que o amor tenha vertigens, e se mantenha dentro de quatro paredes, inalcançável, solitário e fechado.

Porque se o amor não acaba e não o podemos matar, precisamos de o guardar. Alguém tem de o fazer, alguém precisa ficar com o amor. O amor fica do lado de dentro, no sítio dos perdidos e achados, numa praia deserta, numa rua sem movimento, ali. Só. Na esperança de que alguém o encontre – isso, quase nunca acontece ao amor que é guardado, mas o amor é sempre crente.

O amor que se guarda é quase como o vizinho da porta ao lado, muito silencioso, muito contido e envergonhado, que só nos lembramos que existe quando nos cruzamos com ele no elevador.

Não faz sentido, nem é justo ou bonito, mas o amor não é para ser nada disso, o amor é para sempre, mas se não pode ser visto ou desejado, as pessoas aprendem a guardá-lo. Sabem que ele existe, pelos motivos que já expliquei, mas guardam-no do lado de dentro. Fora do alcance. Colam-lhe um post-it colorido com um aviso de que não deve ser tocado, e ninguém mais lhe toca.

As relações terminam, mas o amor não. O amor fica. Só os pés mudam de direção. Só os caminhos se tornam paralelos. Podemos ver o outro, mas não nos voltamos a cruzar. É a lei óbvia dos amores para sempre. O amor permanece à espera de que o deixem ver o sol outra vez, ou apenas vai perdendo as forças pela fome do outro, do que já não se recupera, e lentamente, muito lentamente, vai deixando de respirar. Até ser pó no sítio das coisas que não damos por certas na vida.

Letícia Brito

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Mulher

Aviso: Este texto contém ironia.

Dos dados estatísticos que a APAV nos disponibiliza de 2017, em média 5.036 mulheres foram vitimas de algum tipo de violência. Das vitimas apoiadas registam-se 82,5% do sexo feminino. Será que estes estudos foram feitos por mulheres?

Quem são os culpados de todos estes crimes? As mulheres, claro está. Quem lhes disse que deveriam considerar-se pessoas?

Se as mulheres são vitimas de crimes sexuais, de quem é a culpa, senão delas próprias? Os homens tem desejos, claramente, e elas vestem-se de forma provocadora, não entendem que nem as burcas as tornam menos sensuais, praticamente, instigam o sexo oposto, apelam para que eles se «façam ao bife». E depois choram, seres engraçados, desprovidos de bom senso.

Expurgar as mulheres da sociedade é a forma mais sábia de evitar os crimes contra as mulheres, até porque, essa mesma escumalha gera os homens no seu ventre por 9 meses, logo, a culpa de tudo o que eles fazem depois que são expelidos do útero é exclusiva de quem? Hmm…

As mulheres não precisam ser independentes, não precisam de estudos superiores, de trabalhos bem pagos, ou de conduzir um carro topo de gama, para isso servem os namorados, os amigos e os maridos? E imagine-se a sorte de ter um marido abusador, um crime sexual nunca será um crime, de facto, porque ele é seu marido, e os maridos podem. Podem tudo.

Inclusive, levar-te a acreditar que a culpa é tua, que tu escolheste encarnar o papel de vitima, que tu poderias permanecer em silencio, e que a tua dignidade poderia ser cozinhada em lume brando, enquanto ele te agride, abusa, e prende a tua vida numa ampulheta, assistindo em zona VIP a essa mesma vida sendo dissipada.

O tempo está a contar, e se ele te matar, a culpa é tua que nasceste mulher.

P.S. Este texto foi escrito por uma mulher, e portanto, não deverá ser levado a sério.

Letícia Brito

sábado, 28 de abril de 2018

Carta de um homem arrependido.



Deveria ter escrito esta carta mais cedo, enquanto o teu coração ainda me pertencia, mas sempre fui demasiado mesquinho e egoísta, deixei que a arrogância e o orgulho tomassem conta de mim, arrancando dos meus braços a mulher da minha vida.

Deveria ter escrito esta carta, enquanto dormias ao meu lado, e não agora que o teu corpo está protegido por outro corpo que não o meu.

Deveria ter escrito esta carta, enquanto acordavas e te emaranhavas nos nossos lençóis, despenteada e com um sorriso rasgado, não agora que te emaranhas nos lençóis de outro e sorris de esguelha como quem diz estou feliz por te ter encontrado.

Mas fui fraco e leviano, ao invés de estar aqui a escrever-te deveria estar a bater com a cabeça na parede, vezes suficientes para apagar-te da minha mente. Tive o mundo nas minhas mãos e deixei-o escapar. Mereces melhor do que eu, mereces alguém te ame com o corpo, a alma e o coração, não um idiota qualquer que esperou encontrar-te feliz para perceber que a felicidade eras tu.

Onde estava com a cabeça quando te mandei embora? Onde estava com a cabeça quando disse que não te amava? Eu deveria ter largado o tabaco, o álcool e as drogas, e deveria ter-me viciado somente em ti, porque olha para a minha decadência agora... Da canábis, da ecstasy à cocaína, tu foste a pior, eu morreria com uma overdose de ti e sobreviveria para manter o meu vicio insatisfeito.

Escrevo para dizer-te que deveria ter tatuado o teu nome na minha pele, deveria ter-te gravado no meu corpo com a mesma intensidade que te gravei no meu coração. Escrevo para dizer-te que sinto falta das tardes na praia e que o teu corpo bronzeado era uma visão do paraíso.

Escrevo para pedir-te desculpa pela fumaça do cigarro, que tu evitavas e eu não conseguia largar. Escrevo para pedir-te desculpa por não ter-te ensinado a jogar playstation, e por todas as vezes em que atirei o comando contra a TV. Escrevo para pedir-te desculpa por ter-te mandado embora.

Escrevo para dizer-te que sei que o teu primeiro amor foi o James Dean, numa altura em que nem tencionavas conhecer-me, e que ouvir Lana del Rey ajuda a acalmar-te os nervos. Escrevo para dizer-te que a casa cheirava a rosas quando cá estavas, e agora tudo o que sobra é um odor a solidão e a demência que se vai entranhando até nas paredes. Escrevo para dizer-te que sei que o teu filme preferido é o “P.S.I Love You”, porque o assistimos umas dez vezes, e sei que adoras finais felizes, foi por isso que seguiste em frente sem mim.

Escrevo para dizer-te que continuo a sonhar com a tua volta, e que os teus olhos são lindos, e mais lindos ainda quando no passar do inverno para a primavera ficam verdes claros, e que amo o teu cabelo longo e a forma como os teus fios caem sobre os ombros.

Escrevo para dizer-te o quão maravilhosa és para mim. Talvez tu nem leias e desprezes as minhas palavras, é só a escrita atrapalhada de um homem que se arrependeu, mas sempre será apaixonado por ti.
Sorte daquele que te tem agora… 

Com amor,

O único que te perdeu.

sábado, 24 de março de 2018

O amor mata.


Eu costumava beber só para vê-lo à minha frente, quando a visão se turvava entre lágrimas, soluços e doses exageradas de álcool.
Eu costumava drogar-me até perder a consciência só por saber que era no meu estado inconsciente que a vida valia a pena, porque eu tinha-o de novo, sem nunca o ter tido sequer.
Eu costumava cortar os pulsos e bater com os tornozelos nos pés da cama até ficarem negros, eu costumava enrolar a corda no pescoço e permitia-me sufocar por alguns minutos, porque a única forma de sentir-me viva por dentro, sem ele, era matando o que restava de mim, por fora.
Não foram em vão as noites em que me arranhei e mordi a língua para sentir o que quer que fosse, que não fosse a saudade dele a torturar-me.
Aprendi com a minha dor e com os vícios que fui criando, a desintoxicar-me do amor que tinha por ele; o amor falhado.
Se uns dizem que o amor mais bonito é o próprio, eu digo que o mais bonito de todos é o meu amor por ele. O mesmo que me dá o mundo e me faz querer libertar-me das suas garras. O mesmo que me atrai, seduz e mata-me no final. O mesmo que me colocava no topo só para me enterrar depois. O mesmo que me percorria as veias e me envenenava a cada trago dos seus beijos.
Houve um tempo em que ele me deixou tão partida que eu precisei catar cada pedaço do meu peito do chão, precisei reconstruir tudo sozinha, para depois colocar-lhe o meu coração de novo nas mãos, como se dissesse «anda lá, parte-me de novo», porque era isso que eu queria, na verdade.
É esse amor que pode colorir a vida, afinal.
O amor que te mata. 
Hei-de sempre acreditar nisso.
O amor que te masturba a alma.
E te mata, nos breves segundos em que o orgasmo da vida acontece.
E tal como dois corpos se unem pelo prazer, quanto mais te mata, mais desejas morrer. 

O amor que te faz sentir morta, de tão viva que te deixa.

Letícia Brito