domingo, 18 de fevereiro de 2018

Fome de mim

A verdade é que escrever costumava salvar-me. De mim. E do mundo.
Eu escrevia porque não queria morrer.
Eu escrevia porque parecia-me a maneira mais fácil e rápida de enfrentar os meus demónios.
Eu escrevia porque sabia que a um quilómetro de distancia ou do outro lado do mundo, haveria alguém que se sentiria como eu e a quem as minhas palavras ajudariam.
Sou escritora e tenho a perfeita noção de que escrevo muito melhor quando estou em dor, porque a dor é uma cena tão natural e tão comum a todos, que passar o que sinto cá para fora, deixa-me muito mais perto daqueles que gostam de me ler.
Mas a dor comeu-me a carne, os ossos, a alma e qualquer sentimento bom que eu pudesse ter sentido outrora.
Não havia mais nada em mim além de memórias tristes e vazias, e embora a escrita fosse o meu melhor refúgio, era na mesma medida, o caminho mais certeiro para o precipício.
Eu deixava-me morrer todos os dias, e dava-me até um certo gozo andar de mãos dadas com o meu lado mais feio.
Se a minha vida fosse um filme, aquela fase seria a performance mais chocante de todos os tempos.
Uma miúda no fundo de uma piscina, com duas pedras gigantes a mantê-la longe da superfície. Por mais que ela se debatesse para fugir, não havia alma que a salvasse.
Ela tentava, e tentava, e tentava. Mas tudo o que conseguia distinguir era a sua pulsação fraca, as pernas a cederem à força das águas e o mundo a esmorecer-se ao seu redor.
O corpo dessa miúda estava a desistir, e eu estupidamente, deixava que ela morresse sem sequer lhe dar oportunidade de nascer.
Foi assim que me senti.
E por mais que eu desejasse puxar essa miúda para o topo e fazê-la respirar outra vez, estava sozinha de mais para o conseguir.
Então num dia como outro qualquer, em que o céu chorava a toda a hora, alguém apareceu. E eu precisava desesperadamente de alguém. Alguém que me fizesse acreditar que respirar era bom, que não sou feita só de dor, que o mundo até é bonito, e que se eu tentasse e desse uma oportunidade à vida, era bem capaz de sentir coisas bonitas novamente, e escrever coisas tão bonitas como as que sinto.
Quase enlouqueci no meio da podridão em que tornei a minha vida. Os meus pensamentos; dolorosos de mais. Os meus sonhos; mortos de mais.
Eu precisava de acordar e sentir que valia a pena.
Foi no meio de toda a miséria, que descobri a beleza. O sol amiúde brilha sempre por entre o negro do céu mais triste.
Se não resta mais nada da miúda chorosa e depressiva que um dia fui, então resta-me o meu coração e o meu amor, e a vontade de me transformar numa poesia bonita. Porque não há nada poético em deixarmo-nos morrer por medos, demónios ou corações partidos.
Nunca mais cairei na tentação de alimentar a alma de quem quer que seja se para isso precisar morrer de fome de mim.

Letícia Brito

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