sábado, 14 de julho de 2018

Diário de um gato citadino: Calvin Esparguete de Filomena Lança


Diário de um gato citadino: Calvin Esparguete, publicado este mês pela Dom Quixote, conta-nos a história real do gato Calvin, um bichano que se passeia pelas ruas de Lisboa, conhece novos lugares, novas famílias, vive aventuras hilariantes e regressa sempre a casa para ficar com os donos.

Graças à medalha que carrega ao peito, os donos sabem sempre onde está o Calvin, que por diversas vezes fica com outras famílias, que o acolhem, alimentam, o acarinham e telefonam ao Dono Tomé para o informar que o Calvin está com eles, que o encontraram algures perdido…

Mas, a verdade, é que o Calvin nunca chega a estar realmente perdido, apesar de se envolver em acontecimentos caricatos, e de se afastar de casa por vários meses, chegando ao ponto de viajar de autocarro, o Calvin é um gato verdadeiramente livre. Que leva à letra o que dizem sobre os gatos não serem domesticados, ou sobre, não serem os donos que escolhem o gato, mas vice-versa.

A história é narrada pela voz do próprio Calvin, o que confere à leitura, um maior divertimento e mais fidedignidade. A narrativa, dividida em capítulo curtos, torna a leitura bastante fluída, e envolve-nos. É um livro que nos faz sorrir, gargalhar e rir até chorar devido às peripécias deste gato tão livre, teimoso, curioso e engraçado.

A linguagem da autora, Filomena Lança, é muito direta e sem floreados, com laivos de sarcasmo e humor, visto que a história é narrada pelo ponto de vista do Calvin, simples e enternecedora.

Para todos aqueles que apreciam uma boa leitura nas férias, este é o livro ideal, mas sobretudo, para os amantes destes felinos, este é um livro de leitura obrigatória.

Quem tem a sorte de ter sido escolhido por um gato, irá identificar-se ao longo de toda a narrativa, com os donos do Calvin, e irá identificar o seu próprio amigo bichano com o protagonista desta história.

Eu, que tenho na minha vida, um gato preto de quase cinco quilos, e um ano e meio de vida, cujo nome é Olaf, não resisti a este livro e às aventuras divertidas do Calvin, que são muitas vezes, as aventuras do meu melhor amigo.

Em duas palavras: DIVERTIDO E APAIXONANTE.

Letícia Brito


quinta-feira, 12 de julho de 2018

A Lua de Joana de Maria Teresa Maia Gonzalez

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A Lua de Joana foi uma verdadeira surpresa! Um livro intemporal, que ao longo dos anos tem feito as delícias dos leitores, e que, no entanto, eu ainda não conhecia. Mas já conhecia, sem dúvida, a escrita da autora.

Maria Teresa Maia Gonzalez tem um talento nato para a escrita, com uma linguagem bastante acessível, escorreita e que vence pela simplicidade, entendo agora, que estas razões aliadas à narrativa polémica e atual da história, tornam A Lua de Joana tão grandiosa.

Joana Brito tem quatorze anos e perde a amiga Marta, vítima das drogas, ao longo de toda a narrativa, vamos conhecendo e esmiuçando a vida e os sentimentos da protagonista através de cartas que escreve à amiga para ajudá-la a superar a perda e as crises da adolescência.

Mas isto não é tudo, a família de Joana, é bastante atual, o pai ausente devido ao trabalho, a mãe focada nas últimas modas, o irmão mal-educado, a avó que tenta impor algum respeito… Personagens da vida real, personagens reais.

É através destas cartas que vamos acompanhando o amadurecimento de Joana, bem como, as suas dúvidas e receios, os momentos especiais, os momentos menos bons.

Joana é diferente. É inteligente. É madura. Mas não deixa de ser uma criança, e choca-nos perceber que a verdade é que o mundo está, de facto, sujeito a estas situações, e a crianças a seguirem más influências, e a perderem-se por caminhos menos saudáveis.

A morte é um tabu, mas este livro, prova-nos que é preciso terminar com os tabus. É preciso falar, refletir, pensar, lutar e sobretudo não menosprezar os adolescentes e as suas experiências.

Um livro, que tal como referi, é intemporal, com temas sempre atuais. Um livro que choca. Que marca. Para ler. E para reler. E nos acompanhar, sempre.

Letícia Brito

As Vantagens de Ser Invisível de Stephen Chbosky


As Vantagens de Ser Invisível, título há muito desejado pelos leitores portugueses, chegou esta semana às livrarias, sob a chancela da Edições ASA. Este romance do autor Stephen Chbosky adaptado para o cinema em 2012 pelo próprio autor, transporta-nos para o mundo de Charlie, um jovem de 15 anos, na descoberta de si próprio, da vida e do mundo em geral.

Charlie sempre fora «invisível», mas é chegado o momento de ser mais do que um expetador e tornar-se personagem no filme da sua existência. É após conhecer Patrick e Sam, que tudo muda, ao seu redor e dentro de si, e cresce a necessidade de explorar, amadurecer, conhecer o mundo, e sentir-se infinito.

O livro é narrado através de cartas que o Charlie redige ao seu amigo especial – por amigo especial, eu depreendo que seja o próprio leitor, já que a identidade do «amigo» permanece oculta até ao final, e a leitura nos dá a sensação constante de que o Charlie conversa connosco.

Através de uma linguagem bastante acessível, correta e simples, o autor delineou um protagonista doce e puro, claro está, que o Charlie é um adolescente como tantos outros. O Charlie bebe, fuma, diz palavrões, tem atitudes parvas e envolve-se em discussões violentas – mas acima de tudo, tem um coração de ouro, ama incansavelmente, e é por isso que é tão fácil gostar do Charlie.

Acredito que, embora a narrativa não o confirme, está subentendido que o Charlie sofre de algum distúrbio, quer de personalidade ou ansiedade, isso explica algumas situações em que este jovem se envolve menos agradáveis e que culminam em crises, de choro e violência. Na verdade, temos um protagonista incompreendido, um jovenzinho que sempre se sentiu diferente, mais sensível e inteligente do que a maioria, que sofre com o suicídio do único amigo que conhecera até então e com a perda da tia Helen, a única que, segundo ele, o abraçava.

Nestas cartas, o Charlie vai narrando detalhadamente os acontecimentos do seu dia-a-dia, passado, presente e dúvidas à cerca do futuro, narra-nos os seus pensamentos, emoções e ações. Fala-nos dos seus novos amigos, das experiências novas que vai vivenciando, da relação com a família, e das asneiras, próprias da idade e próprias do Charlie.

O autor aborda temas sempre atuais – e é de ressalvar que o livro foi publicado pela primeira vez em 1999 -, nomeadamente, a violência doméstica, a saúde mental, a gravidez na adolescência, as drogas e o álcool, e até a homossexualidade.

O Charlie é um adolescente simples, a sua vida é simples também e a narrativa não poderia ser diferente, mas há que ler com a alma, retirar as lições subentendidas, refletir, acordar para conceitos que nos são tão comuns e ao mesmo tempo aos quais nunca prestamos atenção.

Este é um daqueles livros que nos marca, seja pela sua simplicidade, seja pela sua mensagem, e pelas personagens tão bem construídas. É um livro que como diria o Charlie, nos faz sentir infinitos. 

E assim, eu o descrevo também, INFINITO.

Letícia Brito