domingo, 5 de agosto de 2018

Casamento da Alma


A maioria das pessoas não compreendeu ainda o que é o casamento. Por ingenuidade, por falta de atenção ou mesmo irresponsabilidade. 

Não compreendem. Confundem o casamento com um papel e duas alianças, quando o casamento não é material, nem se assina. É uma coisa de almas.

É quando duas pessoas se amam tanto ao ponto de permitirem que as suas almas se fundam uma na outra, se entranhem. Debaixo da carne, da pele e dos ossos. Dentro do peito. Além do infinito. Isso é o casamento.

Grande parte das pessoas casa somente uma vez. Casam no dia em que marcaram no notário. Casam porque é verão e porque o bom tempo já chegou, garantindo que as roupas pimponas poderão ser usadas sem restrições. Casam porque gostam de festas. Casam porque têm dinheiro. E porque lá conseguiram arranjar uma quinta com piscina disponível e a bom preço.

Partem uma semana de férias para Palma de Maiorca e quando regressam já estão divorciados emocionalmente. Isto, porque se esquecem de casar nos dias seguintes. Porque se esquecem daquilo que o casamento representa. Mais do que a boda, as prendas e o fogo de artificio. O casamento precisa de alimento assim como o amor.

Não basta casar no dia x, é preciso casar em todos os outros. Sobretudo, nos dias menos bons. Esquecem-se de casar no dia em que chegam tarde do trabalho. Esquecem-se de casar no dia em que a conta da água foi maior. Esquecem-se de casar no mês em que o dinheiro foi escasso. Esquecem-se de casar quando o carro avaria e quando os filhos adoecem.

Esquecem-se do outro. Do juramento de fidelidade, amor e entrega que fizeram no início de tudo. O outro chora e nós resmungamos. Nós choramos e o outro não nos compreende.

Não se pode casar só uma vez, é preciso ter noção de que o casamento requer esforço mútuo, entrega total e paixão desmedida. Se irão existir dias maus? Pois, claro que sim. Mas esses dias maus não podem ser motivo para que os pares se afastem, se retraiam, e evitem qualquer contacto. Às vezes, as pessoas vivem o casamento num constante processo de divórcio. Não o formalizam. Nem sequer se apercebem. Somente quando já é tarde, quando não há solução, quando tudo o que havia para dar, já foi dado e dado e dado.

Acredito no amor e no casamento. No casamento da alma. Quando expurgarmos qualquer sentimento menos agradável em prol do amor e do outro. Quando afastamos a dor e a raiva. Quando exterminamos a frustração e a impotência. Quando há entrega e partilha.

O amor não é uma obrigação, não é um contrato nem carece de nada exterior para subsistir, além de nós mesmos. Da nossa dedicação. Da nossa união. Da nossa força.

O casamento não pode ser visto como uma forma de manter o amor, porque o casamento é o próprio amor. Há pessoas que vivem até ao último suspiro, unidas e apaixonadas, fiéis ao outro e a si mesmas, sem que nunca tenham formalizado o que quer que seja. E, no entanto, há pessoas que vivem na mesma casa toda uma vida, e separadas até ao último suspiro. Emocionalmente divorciadas. Infelizes.

O casamento só faz sentido se as pessoas se dispuserem a casar até ao fim. Diariamente. Sem medos. Com a certeza de que haverá dias maus, mas que esses dias maus, não poderão anular o que há do lado de dentro. Jamais.

Não é um contrato que define o casamento ou o amor. É a alma. A união das almas. As almas que se fundem uma na outra.

Letícia Brito

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