Mostrar mensagens com a etiqueta Contos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Contos. Mostrar todas as mensagens

sábado, 11 de maio de 2019

Puxar a cortina

Fonte: Pinterest
Julieta estava estafada depois de um longo dia de trabalho. Exercia um cargo de contabilista numa multinacional e a sua rotina era marcada por números e contas infindáveis. Mas ainda assim, preferia a agitação do escritório à solidão da casa vazia que a esperava imaculada ao fim do dia.

Desde que ele partira que aquela casa deixara de fazer qualquer sentido na sua vida. Tinham-na comprado e decorado juntos. Tinham planeado tudo ao ínfimo pormenor. Mas agora, ela estava sozinha e, a cada novo dia, se tornava mais doloroso enfrentar as madrugadas no vácuo daquela casa.

Queria vendê-la, porém, aquele espaço era o sonho de uma vida a dois do qual ela não se conseguia desfazer.

Abriu a porta e olhou vagamente em redor da sala. Um sofá de pele ao centro fazia as honras, quadros caros adornavam as paredes brancas e um tapete persa jazia sobre o chão de linóleo.

Descalçou os sapatos de verniz e caminhou até ao sofá. Sobre a mesa de vidro mesmo em frente, uma caixa de sapatos estava entreaberta, despertando-a do transe habitual que não conseguia evitar sempre que adentrava pela porta.

Aninhou-se junto ao sofá e riu pensando, tanto dinheiro gasto nesta porcaria e eu prefiro sempre sentar-me no chão. Puxou a manta do sofá para si e cobriu as pernas, enquanto se acomodava. Ainda ponderou ler um livro, dos muitos que enchiam a sua estante, talvez isso a fizesse ignorar o dia que estava marcado no calendário. Mas ler não a ajudaria a esquecer.

O número sete pairava na sua mente, lembrando-a de que ele fora embora e deveria estar ali.

Pegou numa caneta e retirou da caixa um caderno de capa dura e folhas já amarelecidas, onde começou a rabiscar uma carta.

Espero que no céu o tempo esteja mais agradável do que por cá. Há uma semana que chove sem cessar. Mas o que é uma semana de chuva comparada com toda a desordem que deixaste no meu peito, Gabriel?
Juro que já pensei em largar tudo só para ir ter contigo. É certo que já sabíamos que irias embora, logo que te diagnosticaram o aneurisma, mas será que o céu estava assim tão desesperado para te roubar de mim?
Eles dizem que está na hora de seguir em frente, contudo, seguir em frente não faz sentido se eu souber que quando chegar ao meu destino, não te encontrarei de braços abertos para me receber.
Guardo o arsénico na gaveta junto à cama porque estou cansada e prestes a desistir. Mas se me visses não estarias orgulhoso e, por ti, talvez hoje eu seja capaz de o atirar para o lixo.
O meu coração martela desenfreadamente no peito, como se desejasse escapar-se da caixa torácica. E eu choro.
Penso em todas as histórias de amor que já foram escritas e vividas. Eu sei que não gostarias de me ver nestes prantos e, por ti, talvez hoje eu pondere dançar na chuva. Tu, que sempre gostaste de ver os meus cabelos molhados…

Enquanto Julieta escrevia, a chuva amainou e uma fresta de sol perpassou a cortina da sala. Julieta levantou-se, cambaleando, e aproximou-se da janela. Hesitou, pensando se deveria ou não, puxar a cortina.  

Julieta não sabia ainda o que era suposto fazer para seguir em frente, no entanto, sabia que nem todas as histórias de amor precisam de ser trágicas.

Ele partiu, mas ela ainda cá estava e, seguir em frente, talvez se resumisse à capacidade de puxar a cortina e deixar o sol entrar. E pela primeira vez em dois anos, ele entrou. Tal como era suposto.


quarta-feira, 31 de outubro de 2018

A triste história de amor de Mariana


Mariana era jovem, tinha um espírito aventureiro e uma alma livre, mas um dia, apaixonou-se perdidamente por um rapazinho rebelde.

Ela amava-o de uma forma quase absurda e perdoava todas as suas incoerências e inconstâncias, mesmo quando as suas noites eram regadas de lágrimas. Ela amava-o de uma forma exageradamente verdadeira. Ele roubou-lhe o coração e dezenas de sorrisos. Em troca, ofereceu-lhe flores e dezenas de dores.

O corpo dela; elegante e atraente. Os seus olhos; de um verde intenso e devorador, a sua tez; branca como a neve, a sua alegria; incomparável, tudo isso desapareceu, quando ele foi embora e lhe deixou o coração vazio e a vida num caco.

O amor afundou, mas a esperança continuou a flutuar. Restavam as memórias felizes e uma fotografia que nem o tempo era capaz de destruir. O amor é assim: no início recebemos flores, no fim terminamos num caixão.

Ela morreu, apenas no sentido figurado. O corpo dela continuava presente, mas a alma perdeu-se algures num mundo que ela desconhecia. E tal como em todas as histórias de amor, ele descobriu que a amava, somente depois de a perder. Mas como isto não é, de todo, uma história de amor, não esperem pelo final feliz, ao menor sinal de sentimento. 

Depois de ele gozar a liberdade, navegar noutros corpos e beber de outras fontes, voltou a casa, como um filho pródigo, e propôs-lhe casamento.

Num altar adornado com as rosas amarelas que ela tanto adorava, um padre esperava dar início à cerimónia, enquanto o jovem rebelde e redimido, aguardava impaciente pela chegada da noiva. Ela chegou. E ele segredou-lhe ao ouvido um amo-te tão verdadeiro que ela sentiu-se desvanecer outra vez.

Quando precisou confirmar que aceitava a união, a jovem que era só corpo, ausente de alma ou sentimento, fugiu do altar e percorreu todas as ruas da cidade. A maquilhagem desbotava com a chuva que caía ferozmente naquela noite; eram as lágrimas dele.

Ela sujou o véu em poças de lama, e entrou em todos os bares da cidade, derramou lágrimas enquanto a maioria das mocinhas da sua idade, se limitavam a derramar cervejas. Dançou até os pés doerem e incharem e deitou fora o anel de diamantes que reluzia a quilómetros.

Olhou o relógio, por fim. Ressuscitou. Lembrou-se que ele ainda a esperava no altar e abandonou a festa. Percorreu a calçada da vergonha com os saltos na mão direita e o ramo quase murcho na mão esquerda. Dizem que ela voltou para os braços dele e casou naquela noite. Dizem que a chuva parou - porque as lágrimas dele cessaram. Dizem que ela foi feliz. Mas como seria um fim demasiado romântico e cliché para uma história, eu conto agora a verdade.

Ao tornar ao altar, Mariana disse “sim” e voltaram a casa. Para comemorar a união, derramou champanhe em copos de cristal, com os quais brindariam. Sem que ele imaginasse, depositou umas gotinhas de arsénico e deu-lhe a beber, sorrindo, com a alma e o coração em pedaços, lembrando-se da primeira vez que ele a abandonara e lhe desferira um golpe covarde na face, e de todas as outras vezes em que se viu obrigada a chorar em silêncio, enquanto as manchas negras se iam acumulando no seu corpo, e o seu sangue gotejava das feridas expostas que ele criava e não se coibia de esfregar com sal. O que eram umas gotinhas de arsénico comparadas à violência que em silêncio sofrera por tantos anos, por parte do homem que lhe jurara amor eterno?

Mas ela amava-o. Ou pelo menos, esforçava-se para acreditar nisso, e como tal, depositou o corpo dele sobre a sua cama e agarrou-o naquela madrugada, e em todas as outras que se seguiram.

Haveriam de os encontrar muitos anos depois, abraçados como dois bebés que partilham o mesmo útero, no meio da podridão que fora aquele amor. Porque se existem amores que nos rejuvenescem, também existem alguns que nos levam à ruína.