sábado, 10 de fevereiro de 2018

Avô Francisco

Não sei como começar uma carta, um texto, um bilhete ou o que seja para ti.
Sinto saudades tuas, todos os dias.
E escrever sobre ti ou para ti, nunca será fácil.
Não costumo emocionar-me durante a escrita, é o que amo e tu sabes que só o faço quando me vem diretamente da alma, pelo contrário, nem me esforço. Mas quando o teu nome ou um pensamento sobre ti surge em meio às palavras, não há nada que me valha.
Nascem rios dos meus olhos castanhos (esverdeados), que sei que herdei de ti, e nem imaginas o orgulho que sinto por dizê-lo em voz alta.
Ouves-me aqui?
Nesta frase tão simples e tão cheia de tudo o que és para mim, tenho orgulho de ter herdado em mim, partes de ti.
Escrever sobre o meu avô Francisco é aceitar que ele já cá não está e que a vida seguiu o seu percurso, tal como era suposto.
Se outrora escrevia contos de fada em que eras o herói e salvavas princesas, hoje só me resta esta carta para te falar das saudades que sinto. Não que já não mereças o estatuto de herói, mas tu sabes… já não escrevo histórias de princesas e bruxas más, já não preciso que as resgates. Preciso é de ter-te em mim, e lembrar-te o menos que conseguir.
Porque dói! Todos os malditos dias! Dói!
E mesmo levando-te comigo onde quer que vá, tento pensar-te pouco, ou corro o risco de ser engolida pela saudade que deixaste.
Eras tão lindo!
Conheci-te sempre lindo. Olhos da cor do mar. Cabelos brancos e bigode sempre aparado. De estatura alta e postura altiva.
Procurei-te em tantos rostos e nunca te encontrei, avô…
Não há ninguém que se compare a ti.
Tu ao lado do pai. Bengala na mão. Sorrisos tão perfeitos congelados em fotografias que ainda guardo debaixo da almofada. Amavas o pai como se fosse teu filho. E eu amava ver o amor que davas e davas sem pedir nada em troca.
Jogavas dominó com os teus amigos sem dentes e carecas e eu podia jurar que era das cenas mais porreiras de sempre. A amizade. A amizade que tinhas pelos teus, mesmo que fosses o gajo mais batoteiro que o teu grupo conheceu. Aprendi alguns truques contigo e uso-te como desculpa «o avô também fazia isto», no fim ninguém se aborrece.
Com o teu humor e as tuas anedotas, tantas e tantas vezes repetidas.
Esperei que partisses para decorar a lengalenga que por anos a fio contavas durante o almoço entre uma garfada e outra. Mas decorei e um dia, os bisnetos que nunca vais conhecer, irão decorá-la também, e saberão que mesmo que já cá não estejas, serás sempre a melhor pessoa do mundo.
Hei-de levar as tuas palavras através das gerações, porque se o mundo te perdeu, que aqueles que carregam o teu sangue nas veias, nunca, mas nunca, te percam também.
Sentavas-te na cama ao lado da avó, a tua mão tocava a dela e eu invejei-vos vezes sem conta.
Algures num vídeo do aniversário da avó, o teu sorriso encontra o dela, os teus olhos pousam nas suas rugas, enquanto eu vos dedico um poema que escrevi. Eu não tinha mais que dez anos. A imagem mais linda do mundo.
Tu e ela. O amor que construíste. Os filhos que criastes. Os netos. E eu que fui a última, a neta casula. Que via os desenhos animados no quarto ao lado e me regalava com os doces de chocolate que me davas todas as tardes. Juntado às moedas de cinco cêntimos com que me presenteavas como se fossem uma fortuna, sempre te chamei forreta. Quão ignorante fui…
Tu, com os teus braços esguios abarcavas todos os que amavas e sempre amaste-nos por igual, nunca nos distinguiste uns dos outros, sempre fizeste com que nos sentíssemos especiais e amados. E dinheiro nenhum vale tanto quanto os valores que nos incutiste, os exemplos que nos passaste e o amor que nos deste, que se entranhou de tal forma nas nossas almas, que nada te arranca de nós.
Ser tua neta é o meu maior orgulho e tu serás sempre o meu ídolo!
Contavas a história de amor que gerou tão bela família, e eu só desejava um amor igual. Mas depois a avó morreu e parte de ti morreu com ela.
A avó morreu e se o destino existe, de facto, acreditei nele, quando a perdeste. Ela morreu poucos dias depois do teu aniversário, e tu foste encontrá-la, poucos dias depois do primeiro aniversário que comemoraríamos sem ela. Danado! Até nisso, nos enganaste. Tenho a certeza que só querias estar perto dela!
Só que no fim, não resta nada, nem amor, sonhos, dor ou memórias.
Somente culpa. Disseste-me na véspera de seguir para Leiria de férias, «não vás, fica com o avô», e eu revirei os olhos e beijei-te a face.
Se soubesse que aquele seria o último beijo que te dava, teria pegado uma manta e sentado ao teu lado. Abraçava-te a noite toda e não te deixava partir.
Morreste em paz, é o que dizem. Eu também morri nesse dia, mas a paz nunca a encontrei.
Nunca saberás o quanto chorei e me arranhei por ti. Nunca saberás o quanto te amei e o quanto desejava poder agradecer-te por teres sido tão exemplar.
Às vezes dou por mim a pensar no quão má fui por não ter estado presente, mas eu era uma criança e tento convencer-me disso todos os dias. Porque por mais que evite pensar em ti, a qualquer momento, nas cenas mais simples e insignificantes lá está a tua imagem.
Ó avô se soubesses as saudades que carrego…
Do teu cheiro. Da tua voz. Do teu sorriso.
Hoje guardo-te em fotografias, em cartas que escrevias, em um amontoado de papéis que não servem para nada, mas que eu sei que em algum momento foram tocados por ti, é a minha forma de te sentir por perto.
Tento fazer jus à promessa que te fiz, o teu corpo já era só lembranças e ao nosso redor só se distinguiam lágrimas e dor.
Nunca leste o meu livro, nunca o viste em livrarias, mas está lá. É teu. Dediquei-to.
Foi no pátio da tua casa que escrevi a minha primeira história, tão certa de que queria ser escritora.
Nunca vais saber o quanto cresci. Nunca vais saber que me apaixonei pelo Marcelo. Nunca vais ver-me casar ou ter filhos. E eu queria tanto que cá estivesses, porque sei que irias amar os meus, como se fossem teus também.
Nunca vais conhecer a minha Sofia e o meu Gustavo. Mas sei que os irias amar tanto como nos amaste a todos.
Se há certeza que tenho, é que o amor que nos deixaste é suficiente para alimentarmos os próximos que se seguirem a nós.
Escrevo-te a chorar. Porque nos outros dias todos, evito recordar-te. Sei que estás em mim, e isso basta-me. Mas pensar em ti e no quanto gostaria de ter-te, é doloroso de mais.
Dava metade de mim pela tua vida, e isso nunca mudará, porque vives em mim, muito mais do que grande parte daqueles que me rodeiam.
E viverás em todos os que se seguirem a mim.
Um dia, encontro-te, com esses olhos esbugalhados a sorrirem e a transbordarem amor, cigarro na boca, fumo a turvar-te as feições, e conto-te sobre a vida por aqui. Jogamos uma partida de dominó e eu mostro-te que também sei fazer trafulhices, prometes?
Amo-te.
Eternamente.

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