segunda-feira, 27 de março de 2017

Ana Gonçalves em entrevista sobre a sua carreira literária

Ana Gonçalves, 2014 (foto da autora)
Ana Gonçalves tem 27 anos e vive em Bragança, com licenciatura em Psicologia e Mestrado em Psicologia da Educação, já publicou quatro obras e participou numa Antologia. Gosta de ler, gosta do silencio, gosto do cinema e do teatro, da música e da criatividade. Gosta de dançar, sobretudo, dançar sob a chuva. Gosta de viagens, de amigos. De mar e de sol. 
Hoje, nesta rubrica, que por motivos pessoais e profissionais, esteve pendente durante alguns meses, regresso com uma entrevista a esta ainda tão jovem e dinâmica autora. 

✍ Como te iniciaste na escrita?
Iniciei-me na escrita, de uma forma mais regular, quando frequentava o 10º ano de escolaridade. Na altura, com os meus 14 anos, a escrita revelou-se uma boa técnica de estudo. As disciplinas de Português e Filosofia provocaram em mim uma vontade enorme de escrever sobre as coisas do Mundo e sobre a minha perspectiva pessoal sobre essas coisas. E tudo começou dessa forma…

✍ Ficcionas aquilo que escreves ou os teus escritos tem também conotação pessoal?
O meu primeiro (Ópera de Cristal) e quarto (A Melodia do Sonho) livros são produções totalmente ficcionais. Contudo, a maioria dos locais onde decorre a história é-me familiar. Este factor é propositado uma vez que, desta forma, é-me possível fazer descrições mais fidedignas e abordar detalhes de determinados lugares, de determinada cultura. O meu segundo (Simplesmente Eu) e terceiro (Retalhos de Mim) livros, obras poéticas, já apresentam um carácter mais pessoal.

✍ O que é que a escrita mudou em ti, enquanto pessoa?
A escrita teve um papel fundamental para evoluir enquanto pessoa. Num primeiro momento, posso dizer que foi a escrita que me permitiu sentir, pela primeira vez, o que é o sentimento de dever cumprido e de realização profissional. Através dela, descobri o caminho que tanto queria encontrar. A paixão, o talento que eu procurava dentro de mim. Como consequência, permitiu-me desenvolver determinadas características pessoais que, desde logo, foram decisivas na minha vida de uma forma geral. Aprender a nunca desistir, aprender a lidar com as críticas são algumas dessas mudanças que me possibilitaram crescer como pessoa. Não posso deixar de mencionar o facto de, através da escrita, ter desenvolvido uma maior capacidade para olhar para outros mundos, outras perspectivas, outros horizontes.

✍ O que sentes quando escreves?
Escrever proporciona-me um misto de sensações. Surpresa. Inspiração. Realização plena. Alegria. Paz. O processo de escrita provoca-me um entusiasmo inesperado de criar algo, de criar histórias, de criar memórias. Histórias e memórias que são o veículo que me permite deixar uma mensagem ao leitor. Uma mensagem com a qual me identifico. Uma mensagem que sinto que pode, um dia, fazer a diferença.

✍ Qual é a maior dificuldade que sentes quando estás a escrever?
Não sei se posso dizer que tenho dificuldades quando estou a escrever. Não encaro os obstáculos e os desafios como dificuldades uma vez que, para mim, o processo de escrita é um processo prazeroso. Escrever e apagar certas palavras. Esquecer um capítulo escrito e reiniciá-lo e alterá-lo totalmente só porque surgiu uma ideia melhor. Viajar para conhecer os sítios onde decorrerá a acção da história… tudo isto vale a pena. Encaro todas estas etapas com entusiasmo e satisfação e, sobretudo, com uma vontade, um tanto inocente, de mostrar uma forma diferente de ver o mundo. A minha forma.

✍ Tens algum ritual de escrita?
Não sei se poderei chamar de ritual de escrita. Contudo, quando escrevo, tenho, obrigatoriamente, de ouvir música. A música é um elemento obrigatório para que a inspiração venha até mim.

✍ Consideras a escrita uma necessidade ou um passatempo?
A escrita, para mim, tornou-se numa necessidade. É impossível parar de escrever porque escrever já faz parte de quem eu sou, do caminho que pretendo trilhar. Tornou-se numa forma de encarar a vida. Tornou-se numa forma de viver a vida.

✍ Como encaras o processo de edição em Portugal?
Tendo em conta a minha experiência, posso dizer que, para mim, o processo de edição é um processo flexível, onde há um trabalho conjunto entre o escritor e a editora, permitindo que haja sempre uma identificação pessoal do escritor para com o resultado final.

✍ Estás em constante contacto com o público, como vives isso?
Acredito que o contacto com o público é um elemento decisivo se pretendemos conhecer o impacto que as nossas obras têm nos leitores. As redes sociais são um óptimo instrumento para potencializar e manter esse contacto. No meu caso, utilizo uma página de Facebook, intitulada Ana Gonçalves, para receber dúvidas e opiniões dos meus leitores assim como para divulgar o meu trabalho de uma forma mais rápida e eficaz. Para complementar, costumo dirigir-me a várias rádios e jornais aquando da publicação de novas obras ou participações.

✍ O feedback é positivo?
Desde o início desta jornada, que sempre recebi um feedback positivo. Há elogios. Há reconhecimento. Há críticas construtivas. Sinto até que há um cuidado, uma certa ternura, na forma como os leitores se dirigem a mim. Penso que esse cuidado se deve ao facto de ter iniciado este percurso literário ainda em tenra idade…

✍ Como encaras as criticas, de foro negativo ou positivo, quando elas surgem?
Elaborei o meu primeiro livro com 17 anos e iniciei o processo de edição com 18 anos. Sentia-me uma menina, que pouco conhecia, neste mundo literário. E, por isso mesmo, eu sabia que as críticas iriam surgir. Positivas ou negativas. Escrever um livro implica uma exposição de quem somos e da mensagem que pretendemos passar. Eu tinha consciência dessa exposição. E, actualmente, ao fazer uma retrospectiva a esse tempo, só tenho a agradecer ao meu núcleo de pessoas mais próximo, família e amigos, por terem sido um suporte e um auxílio neste aspecto e em tantos outros. Portanto, posso dizer que com a ajuda destas pessoas, sempre soube lidar bem com as críticas, fossem elas construtivas ou não.

✍ Quais os temas que gostas de abordar quando escreves?
Não falaria em temas, mas sim em histórias. Gosto de histórias que tenham algo para ensinar, que tenham algo para demonstrar. Gosto de histórias que nos façam querer viver e, principalmente, querer acreditar. Sinto que há, actualmente, uma descrença total na realidade e nas pessoas e eu quero, através dos meus livros, remar contra essa maré. Mostrar que ainda vale a pena acreditar! Nos sonhos. Na vida. No amor.

✍ Tens hábitos de leitura? Consideras importante ler para escrever bem?
Nos últimos anos, desde que comecei a escrever de uma forma mais regular, tenho vindo a adquirir esse hábito de leitura. Senti essa necessidade para evoluir enquanto escritora que pretendo ser. Ler outros estilos. Ler outros tipos de histórias. Por isso, considero importante ler para evoluirmos e aperfeiçoarmos a nossa forma de escrever. A nossa identidade literária. A nossa arte. Ler permite-nos analisar outras produções. Pensar nelas. Reflectir sobre elas. Para mim, só assim é que é possível encontrarmos o nosso lugar no mundo das palavras.

✍ Se só pudesses ler apenas um único livro para o resto da tua vida, qual seria o “privilegiado”?
Se pudesse ler um só livro para o resto da minha vida escolheria “O Principezinho” pelo impacto que teve na minha forma de encarar o mundo. Contudo, não pelo livro em si, mas pela mensagem que transmite também escolheria “O Clube dos Poetas Mortos”.

✍ O que gostarias de partilhar sobre as tuas obras?
As minhas obras, apesar de exibirem histórias fictícias, apresentam sempre dois elementos que considero uma marca pessoal. O primeiro elemento é a presença de uma referência do meu país. Portugal. Sinto que, enquanto cidadã, tenho o privilégio de viver em Portugal e contemplar as suas maravilhas. Portugal inspira-me e eu quero, através das minhas palavras, partilhar o resultado dessa inspiração. O segundo elemento é a presença de uma outra arte. A música. Escrevo sempre a ouvir música. Como tal, sinto necessidade de colocá-la nas minhas obras seja de forma camuflada ou não.

✍ Quais as tuas perspectivas para o futuro?
Eu acredito que o meu trabalho e a minha dedicação serão um dia reconhecidos. Acredito que o esforço faz a diferença. Acredito que o amor inerente à minha escrita fará a diferença. Por isso, ao pensar no futuro, penso, inevitavelmente, num futuro com palavras e amor. Poder escrever, para mim, é já um privilégio. E sendo um privilégio é já um sucesso pessoal.

✍ Além da escrita, que outras paixões nutres, que te completam enquanto pessoa?
Todas as artes têm um poder transformador na pessoa que sou. Contudo, para além da escrita, é a música que mais se evidencia. A música e as palavras são, para mim, uma combinação perfeita. Uma constante no meu dia-a-dia. Por isso, posso, de igual forma, considerar a música uma segunda paixão porque sempre foi uma fonte segura de inspiração.

✍ Que mensagem gostarias de passar aos teus seguidores?
A mensagem que gostaria de passar é simples. Nunca desistam dos vossos sonhos. Não digam que são pequenos demais para os alcançarem. Não pensem que são sonhos demasiado grandes para as vossas mãos. Transformem-nos, antes, em objectivos e lutem diariamente para atingi-los. O impossível acontece todos os dias. E nós só temos que estar preparados para quando ele chegar!

✍ Quais os teus objetivos enquanto escritor?
O meu objectivo enquanto escritora é conseguir cativar um maior número de leitores para que as minhas mensagens e as minhas histórias cheguem às pessoas que sentem e vivem e reflectem sobre a vida.

✍ Apenas numa palavra, descreve-te: Acreditar!

Obras publicadas:
  • Ópera de Cristal (2008)
  • Simplesmente Eu (2009)
  • Retalhos de Mim (2013)
  • A Melodia do Sonho (2014)
  • Participação na Antologia Luso Brasileira de Poesia Contemporânea Entre o Sono e o Sonho (vol VI) (2015) da Chiado Editora.


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