quinta-feira, 21 de abril de 2016

A edição em Portugal


A edição literária em Portugal é um caos. As grandes editoras não dão espaço para os novos autores. O mercado é atualmente dominado por cadeias literárias que são – literalmente – impossíveis de alcançar para os autores desconhecidos – por mais talentosos que estes sejam.

Basicamente, o mercado é controlado pelas editoras tradicionais – de acesso, impossível – e pelas vanity-press, as impressoras gigantescas, que publicam centenas de livros por ano, a troco de alguns bons trocos. Não há meio termo, Portugal sofre de uma espécie de síndrome de borderline literário.

É óbvio que se formos filhos de fulano, sobrinhos de sicrano ou parentes em 4ª grau de beltrano, temos muito mais possibilidades de vermos os nossos originais serem lidos pelos melhores editores. Ou então basta-nos participar no próximo reality show – que privilegiar as nossas mamocas – e um livro torna-se a coisa mais fácil de publicar.

Vivemos num país em que não precisamos de ser médicos para sermos doutores, mas precisamos ter nome para sermos escritores, isto é, escritores que não precisam tirar do próprio bolso para serem publicados, porque qualquer um que pague, hoje pode escrever e publicar, e tão triste como não termos créditos perante as grandes editoras, é vermos trabalhos sem qualquer potencial serem publicados por empresas mais pequenas, que não publicam literatura, mas um amontoado de palavras, desde que o autor se disponha a abrir a carteira.

É este desequilibro que me corrói a alma, não que eu não acredite que há muitos bons escritores à espera de uma oportunidade, e então encontram uma editora que pede um valor monetário, até aceitável, e o sonho torna-se palpável, real. No entanto, é este género de publicação de acesso cada vez mais fácil que vai denegrindo a literatura no nosso país. Não é que eu não ache que toda a gente deva realizar os seus sonhos, porém, se eu tenho o sonho de fazer uma perfomance no ballet clássico russo, mas tenho dois pés esquerdos, resta-me o bom senso de me preparar e trabalhar mais para chegar ao próximo nível.

O resultado destas publicações pagas traduz-se em livros mal paginados, sem revisão, com erros crassos e imperdoáveis de concordância, gramática, pontuação e afins, erros que matam qualquer autor à nascença, o nosso original sem o mínimo de estrutura e maturidade chega às mãos dos grandes editores e é rasgado. Próximo. Imaginem o gajo mais expert de uma editora de renome a ler algo como «Olá, chamo-me Isaura e tenho vinte anos. Nasci no Porto e escrevi este romance porque gosto de falar sobre o amor», a sério Isaura? Escreves uma biografia em primeira pessoa e apedrejas os editores que não te responderam?

Interesses. O mundo rege-se por interesses. Ninguém quer saber se escreves bem, se ganhaste muitos prémios e se lês Buwoski. Interesses. Comissões. O dinheiro a abundar nos bolsos e faz-se um livro.

A maior alegria de um pseudo-escritor é ser aceite por uma editora, pagar uns absurdos dois mil e euros e distribuir um livro pelos amigos. A maior alegria de um escritor é ser aceite por uma boa editora, que não olhe à sua carteira, mas ao potencial do seu manuscrito.

Iludi-me várias vezes nesta caminhada, deixei que me matassem antes mesmo que eu pudesse ser gerada, até que esperei, aprimorei-me, fui paciente e responsável. Escrevi. Escrevi. Escrevi. Não parei de escrever. A minha hora haveria de chegar. Alguém haveria de me ler e dizer «esta miúda vale a pena», porque raios, se valho.

Mudaria muita coisa no meu percurso, mas não mudaria esta vontade que me come a carne e me lixa os ossos, que me atravessa o corpo como uma cicatriz, de uma ponta à outra, e me faz escrever.


Antes morrer pela escrita, do que morrer pela falta dela. 

Letícia Brito

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