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domingo, 18 de fevereiro de 2018

Escrevi-te um poema

Ele disse-me antes de partir, “nunca ninguém irá querer saber do que escreves”.
E a vida deu-lhe uma valente bofetada.
Não foi forte o suficiente, mas acordou-o para a minha realidade que hoje não lhe pertence.
Nunca escrevi por ti nem para ti, ou por nós nem para nós.
Não foste tu que me tornaste no que sou, só porque foste o primeiro a quebrar-me, mas aqui estou, a provar-te que nunca dependi de ti.
Quando recuo às minhas primeiras memórias, vejo uma menina sentada no jardim das traseiras da casa dos seus avós, de caderno sobre os joelhos e caneta na mão, a gatafunhar príncipes encantados que ela sempre soube que não existiam.
Nunca escrevi sobre amor por acreditar no homem perfeito.
Escrevia porque acreditava no amor. E acreditava que um dia ele chegaria até mim.
Liberto-me de mim mesma, todos os dias.
Quando escrevo e reescrevo sobre um amor que nunca vivi.
Nem viverei, porque palavras são insuficientes para falar do amor dos amantes.
Mas eu escuto-os.
Eles falam. Do que não sabem.
A vida deixou-me cair vezes sem conta.
Mas por mais partida que esteja, e por mais rasteiras que me passem, haverá sempre alguém.
A descobrir a mulher por detrás das palavras que nunca conseguiste entender.
Mais do que aqueles que nos arrancam pedaços, cuja existência, nos era até então desconhecida.
Mais dos que os cortes e os gritos.
Mais dos que as paredes cheias de nada.
Mais do que o meu corpo meio vivo.
Mais do que as noites em que me deixei morrer.
Porque fui eu que me matei.
Nunca os outros, sempre eu.
E estou ciente disso, é por isso que escrevo.
Não porque não goste de me ver viva, mas porque sentir-me morta é a forma mais fácil de continuar a escrever.
Estou de alma cheia e peito vazio. Dorida, massacrada e farta.
Inspiro o veneno que os outros expiram.
No final da rua, há alguém, há sempre alguém que me diz o quão bonito as coisas podem ser futuramente, mas eu vivo o agora.
Quem me dera que me pudesses ver hoje a sorrir.
Não ao lembrar-me de ti.
Mas ao lembrar-me de como uma pessoa cheia de nada, pode deixar-se esvaziar ainda mais.
Sobre nós, espero que saibas: escrevi-te um poema.
Sobre duas pessoas que se amaram muito.
Mas uma delas partiu.
E a outra aprendeu que amar demais é deixar-se partir.

Letícia Brito 

Fome de mim

A verdade é que escrever costumava salvar-me. De mim. E do mundo.
Eu escrevia porque não queria morrer.
Eu escrevia porque parecia-me a maneira mais fácil e rápida de enfrentar os meus demónios.
Eu escrevia porque sabia que a um quilómetro de distancia ou do outro lado do mundo, haveria alguém que se sentiria como eu e a quem as minhas palavras ajudariam.
Sou escritora e tenho a perfeita noção de que escrevo muito melhor quando estou em dor, porque a dor é uma cena tão natural e tão comum a todos, que passar o que sinto cá para fora, deixa-me muito mais perto daqueles que gostam de me ler.
Mas a dor comeu-me a carne, os ossos, a alma e qualquer sentimento bom que eu pudesse ter sentido outrora.
Não havia mais nada em mim além de memórias tristes e vazias, e embora a escrita fosse o meu melhor refúgio, era na mesma medida, o caminho mais certeiro para o precipício.
Eu deixava-me morrer todos os dias, e dava-me até um certo gozo andar de mãos dadas com o meu lado mais feio.
Se a minha vida fosse um filme, aquela fase seria a performance mais chocante de todos os tempos.
Uma miúda no fundo de uma piscina, com duas pedras gigantes a mantê-la longe da superfície. Por mais que ela se debatesse para fugir, não havia alma que a salvasse.
Ela tentava, e tentava, e tentava. Mas tudo o que conseguia distinguir era a sua pulsação fraca, as pernas a cederem à força das águas e o mundo a esmorecer-se ao seu redor.
O corpo dessa miúda estava a desistir, e eu estupidamente, deixava que ela morresse sem sequer lhe dar oportunidade de nascer.
Foi assim que me senti.
E por mais que eu desejasse puxar essa miúda para o topo e fazê-la respirar outra vez, estava sozinha de mais para o conseguir.
Então num dia como outro qualquer, em que o céu chorava a toda a hora, alguém apareceu. E eu precisava desesperadamente de alguém. Alguém que me fizesse acreditar que respirar era bom, que não sou feita só de dor, que o mundo até é bonito, e que se eu tentasse e desse uma oportunidade à vida, era bem capaz de sentir coisas bonitas novamente, e escrever coisas tão bonitas como as que sinto.
Quase enlouqueci no meio da podridão em que tornei a minha vida. Os meus pensamentos; dolorosos de mais. Os meus sonhos; mortos de mais.
Eu precisava de acordar e sentir que valia a pena.
Foi no meio de toda a miséria, que descobri a beleza. O sol amiúde brilha sempre por entre o negro do céu mais triste.
Se não resta mais nada da miúda chorosa e depressiva que um dia fui, então resta-me o meu coração e o meu amor, e a vontade de me transformar numa poesia bonita. Porque não há nada poético em deixarmo-nos morrer por medos, demónios ou corações partidos.
Nunca mais cairei na tentação de alimentar a alma de quem quer que seja se para isso precisar morrer de fome de mim.

Letícia Brito

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Avô Francisco


Não sei como começar uma carta, um texto, um bilhete ou o que seja para ti.
Sinto saudades tuas, todos os dias. 

E escrever sobre ti ou para ti, nunca será fácil.
Não costumo emocionar-me durante a escrita, é o que amo e tu sabes que só o faço quando me
vem diretamente da alma, pelo contrário, nem me esforço. Mas quando o teu nome ou um
pensamento sobre ti surge em meio às palavras, não há nada que me valha.
Nascem rios dos meus olhos castanhos (esverdeados), que sei que herdei de ti, e nem imaginas o
orgulho que sinto por dizê-lo em voz alta.
Ouves-me aqui?
Nesta frase tão simples e tão cheia de tudo o que és para mim, tenho orgulho de ter herdado em
mim, partes de ti.
Escrever sobre o meu avô Francisco é aceitar que ele já cá não está e que a vida seguiu o seu
percurso, tal como era suposto.
Se outrora escrevia contos de fada em que eras o herói e salvavas princesas, hoje só me resta esta
carta para te falar das saudades que sinto. Não que já não mereças o estatuto de herói, mas tu
sabes… já não escrevo histórias de princesas e bruxas más, já não preciso que as resgates. Preciso
é de ter-te em mim, e lembrar-te o menos que conseguir.
Porque dói! Todos os malditos dias! Dói! 

E mesmo levando-te comigo onde quer que vá, tento pensar-te pouco, ou corro o risco de ser engolida pela saudade que deixaste.
Eras tão lindo!
Conheci-te sempre lindo. Olhos da cor do mar. Cabelos brancos e bigode sempre aparado. De
estatura alta e postura altiva. 

Procurei-te em tantos rostos e nunca te encontrei avô… 
Não há ninguém que se compare a ti.
Tu ao lado do pai. Bengala na mão. Sorrisos tão perfeitos congelados em fotografias que ainda
guardo debaixo da almofada. Amavas o pai como se fosse teu filho. E eu amava ver o amor que
davas e davas sem pedir nada em troca.
Jogavas dominó com os teus amigos sem dentes e carecas e eu podia jurar que era das cenas mais
porreiras de sempre. A amizade. A amizade que tinhas pelos teus, mesmo que fosses o gajo mais
batoteiro que o teu grupo conheceu. Aprendi alguns truques contigo e uso-te como desculpa «o
avô também fazia isto», no fim ninguém se aborrece.
Com o teu humor e as tuas anedotas, tantas e tantas vezes repetidas.
Esperei que partisses para decorar a lengalenga que por anos a fio contavas durante o almoço
entre uma garfada e outra. Mas decorei e um dia, os bisnetos que nunca vais conhecer, irão
decorá-la também, e saberão que mesmo que já cá não estejas, serás sempre a melhor pessoa do
mundo.
Hei-de levar as tuas palavras através das gerações, porque se o mundo te perdeu, que aqueles que
carregam o teu sangue nas veias, nunca, mas nunca, te percam também.
Sentavas-te na cama ao lado da avó, a tua mão tocava a dela e eu invejei-vos vezes sem conta.
Algures num vídeo do aniversário da avó, o teu sorriso encontra o dela, os teus olhos pousam nas
suas rugas, enquanto eu vos dedico um poema que escrevi. Eu não tinha mais que dez anos. A
imagem mais linda do mundo.
Tu e ela. O amor que construíste. Os filhos que criastes. Os netos. E eu que fui a última, a neta
casula. Que via os desenhos animados no quarto ao lado e me regalava com os doces de chocolate
que me davas todas as tardes. Juntado às moedas de cinco cêntimos com que me presenteavas
como se fossem uma fortuna, sempre te chamei forreta. Quão ignorante fui… 

Tu, com os teus braços esguios abarcavas todos os que amavas e sempre amaste-nos por igual, nunca nos distinguiste uns dos outros, sempre fizeste com que nos sentíssemos especiais e amados. E dinheiro nenhum vale tanto quanto os valores que nos incutiste, os exemplos que nos passaste e o
amor que nos deste, que se entranhou de tal forma nas nossas almas, que nada te arranca de nós.
Ser tua neta é o meu maior orgulho e tu serás sempre o meu ídolo!
Contavas a história de amor que gerou tão bela família, e eu só desejava um amor igual. Mas
depois a avó morreu e parte de ti morreu com ela.
A avó morreu e se o destino existe, de facto, acreditei nele, quando a perdeste. Ela morreu poucos
dias depois do teu aniversário, e tu foste encontrá-la, poucos dias depois do primeiro aniversário
que comemoraríamos sem ela. Danado! Até nisso, nos enganaste. Tenho a certeza que só querias
estar perto dela!
Só que no fim, não resta nada, nem amor, sonhos, dor ou memórias.
Somente culpa. Disseste-me na véspera de seguir para Leiria de férias, «não vás, fica com o avô», e
eu revirei os olhos e beijei-te a face.
Se soubesse que aquele seria o último beijo que te dava, teria pegado uma manta e sentado ao teu
lado. Abraçava-te a noite toda e não te deixava partir.
Morreste em paz, é o que dizem. Eu também morri nesse dia, mas a paz nunca a encontrei.
Nunca saberás o quanto chorei e me arranhei por ti. Nunca saberás o quanto te amei e o quanto
desejava puder agradecer-te por teres sido tão exemplar.
Às vezes dou por mim a pensar no quão má fui por não ter estado presente, mas eu era uma
criança e tento convencer-me disso todos os dias. Porque por mais que evite pensar em ti, a
qualquer momento, nas cenas mais simples e insignificantes lá está a tua imagem.
Ó avô se soubesses as saudades que carrego…
Do teu cheiro. Da tua voz. Do teu sorriso.
Hoje guardo-te em fotografias, em cartas que escrevias, em um amontoado de papeis que não
servem para nada, mas que eu sei que em algum momento foram tocados por ti, é a minha forma
de te sentir por perto.
Tento fazer jus à promessa que te fiz, o teu corpo já era só lembranças e ao nosso redor só se
distinguiam lágrimas e dor.
Nunca leste o meu livro, nunca o viste em livrarias, mas está lá. É teu. Dediquei-to.
Foi no pátio da tua casa que escrevi a minha primeira história, tão certa de que queria ser
escritora.
Nunca vais saber o quanto cresci. Nunca vais saber que me apaixonei pelo Marcelo. Nunca vais
ver-me casar ou ter filhos. E eu queria tanto que cá estivesses, porque sei que irias amar os meus,
como se fossem teus também.
Nunca vais conhecer a minha Sofia e o meu Gustavo. Mas sei que os irias amar tanto como nos
amaste a todos.
Se há certeza que tenho, é que o amor que nos deixaste é suficiente para alimentarmos os
próximos que se seguirem a nós.
Escrevo-te a chorar. Porque nos outros dias todos, evito recordar-te. Sei que estás em mim, e isso
basta-me. Mas pensar em ti e no quanto gostaria de ter-te, é doloroso de mais.
Dava metade de mim, pela tua vida. E isso nunca mudará, porque vives em mim, muito mais do
que grande parte daqueles que me rodeiam.
E viverás em todos os que se seguirem a mim.
Um dia, encontro-te, com esses olhos esbugalhados a sorrirem e a transbordarem amor, cigarro na
boca, fumo a turvar-te as feições, e conto-te sobre a vida por aqui. Jogamos uma partida de
dominó e eu mostro-te que também sei fazer trafulhices, prometes?
Amo-te.
Eternamente.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

O tempo


Houve uma altura – às vezes parece que aconteceu noutra vida – que gostei tanto de alguém que isso quase me matou.

Dito em voz alta, soa estranho, se tiver em consideração que essa dor me levou a onde estou hoje e que o meu coração está ocupado, parece que estou romantizar demasiado e a tentar transformar uma ilusão numa história bonita de amor, mas não estou, é a verdade.

Não o escrevo para voltar as atenções para mim, não o escrevo para mostrar ao mundo o meu lado frágil, mas porque sei que há momentos ao longo das nossas vidas, que a própria vida nos esbofeteia de tal forma que nos faz crer que jamais conseguiremos nos reerguer. E eu já me senti assim.

Aprendi a chorar sozinha desde muito pequena, porque tal como o amor, também a dor deve ser privada, porque haveria de fazer os que me rodeiam carregar as minhas mágoas? Porque é isso que acontece quando nos expomos, aqueles que nos amam, perante a impotência, sentem-se na obrigação de segurar as nossas dores nas mãos para nos tentarem aliviar, e quem dera que fosse tão simples assim curar uma ferida.

Então de repente, dei por mim, a dançar com a alma despida à frente do mundo, perdi o controlo de mim e das minhas lágrimas, fiquei tão exposta que quase pensei que jamais conseguiria recompor-me.

Perdi a conta às noites em que caí na cama e encolhi-me como um bebé enquanto encarava o teto do quarto, só porque sim, e escutava a minha própria respiração para certificar-me de que ainda estava viva e então, desejava morrer.

Encarar o espelho tornou-se impossível, não havia maquilhagem nem roupas caras que ocultassem aquilo em que me havia tornado, um amontoado de memórias, promessas e despedidas.

Sair com as amigas era um verdadeiro desafio que eu nunca conseguia superar, por mais sorrisos que desse e por mais que cansasse os meus pés a dançar numa pista, eu estava sozinha. No meio de tanta gente, e sozinha. Como se vive depois do amor?

E o mais doloroso nesta confusão toda, eram as mentiras que contava a mim mesma.

Que tudo ficaria bem no tempo certo.

Que o buraco no meu peito seria eventualmente preenchido por outra pessoa.

Que é preciso passar pela tempestade para descobrir o sol.

E que com o tempo aprenderia a amar de novo, e mais do que antes.

Quando dei por mim, nem sabia se estava no meio de uma tempestade, ou se me teria tornado eu, a  própria tempestade.

E os conselhos são sempre os mesmos, só muda o interlocutor.

Vai passar. Sair com as amigas pode ajudar. O tempo vai curar. Precisas ser paciente.

É como um parque de diversões, que percorres com uma perna partida, enquanto tropeças vezes e vezes consecutivas nos teus próprios pés, até que aceitas que está na hora de deitar fora o bilhete e dar a diversão por terminada.

É um processo complicado compreender que embarcaste numa viagem quando não era suposto, que haveriam outras alturas mais apropriadas para embarcar, mas por conta e risco, entraste sem hesitar e agora não sobra nada, percebes que partes de ti foram perdidas no percurso e possivelmente nunca as irás recuperar.

E a ironia disto tudo, é que eu sabia desde o primeiro momento.

Nós sabemos sempre, quando algo não foi feito para resultar, quando as probabilidades nem sequer podem ser equacionadas, porque simplesmente não existem. E mesmo assim continuamos.

Eu sabia desde sempre que embora eu quisesse, nunca poderia querer por ambas as partes, ou talvez podia, mas isso acabaria por destruir-me mais tarde ou mais cedo.

Assim, os dias mais feios e tristes da tua vida, com o passar do tempo, transformam-se nas tuas lições mais bonitas e eventualmente aceitas que está na hora de pegar nos teus pedaços e juntá-los outra vez, porque ninguém poderá recompor-te além de ti mesmo.

Mesmo perdendo tanto de ti no meio da tempestade, tornas-te mais forte, e é aqui que eu queria chegar, ganhas uma espécie de imunidade a tudo o que vem depois. E dessa forma, encontras a positividade em toda a porcaria que te aconteceu, com a certeza de que irás amar de novo, mas melhor, e que as promessas foram feitas para serem cumpridas e o amor acontece para te dar vida e não para te a roubar.

E o mais incrível em tudo isto, é que embora acredites que um coração partido nunca se pode consertar, a verdade é que ele cura-se sozinho, no momento devido.

E cura-se de uma forma tão doce e bonita, que num dia qualquer, passas em frente ao espelho que te mostrava o quanto eras medonha e percebes que afinal te esqueceste de todas as mágoas que te atormentavam.

A tua cabeça apaga o que foi menos bom, os dias, as palavras como facas, o coração partido, as fotografias rasgadas e a banda sonora da tua não-história-de-amor. E aqui tens a tua oportunidade de seres feliz, e amares novamente, desta vez, de verdade.

Não que nunca tenhas amado antes, apenas te atropelaste na tua própria confusão. É isso que as relações fazem quando menos esperamos, atropelam-nos, se forem erradas.

Neste caminho que não escolheste percorrer, acabas por descobrir conforto e amor, e outra pessoa que a mil léguas, encara o teto e olha o espelho sem esperança, irá descobrir conforto também, quiçá, no teu próprio caminho.


Os caminhos cruzam-se com um propósito, e o tempo, se lhe deres tempo, cura tudo.

Letícia Brito

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

A caneta da tua vida

O único problema do ser humano, é não ser humano. É viver como máquina, isento de sentimentos, vazio de escolhas e deixar que os outros decidam tudo por nós. É cumprimentar fulano para agradar, é sorrir a sicrano por educação, e achar que beltrano vai ficar feliz com a nossa felicidade. É olhar ao nosso redor e não ver as verdades que dançam nuas na nossa frente. É olhar-mo-nos ao espelho e acharmos sempre que: o cabelo não está bem, as olheiras estão demasiado marcadas, aquele dente está mais torto que os outros, os vizinhos são sempre melhores que nós. É «andar por ver os outros». Ver beleza na hipocrisia, deitar na cama com a ignorância e acreditar piamente que somos donos de nós, quando deixamos de ter controlo da nossa própria vida, no primeiro momento em que demos voz a outros sobre nós. Acho que dormi por tempo demais, deixei-me arrastar pelo ego de quem me rodeava, deixei que o mundo me esquecesse, permiti que me fizessem personagem secundária de uma história que sou eu que escrevo. Então, só te quero lembrar, nunca, mas nunca, deixes a caneta da tua vida, nas mãos de quem não aprendeu a escrever.
Letícia Brito

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Tarde demais



Algumas pessoas entram nas nossas vidas com um único objetivo: ensinar-nos a não sermos como elas. Infelizmente, só nos damos conta disso, quando elas já estão prontas para abandonar a casa no nosso peito.
Não forço ninguém a ficar. Não finjo sorrisos para agradar. Nem desejo nada de mal, até porque a vida tem a sua forma de nos chapar na cara o que precisamos aprender, da pior maneira.
Se a pessoa está decidida a partir, até a ajudo a fazer as malas, dou-lhe um pontapé no rabo e bato-lhe a porta na cara.
Há pessoas que não valem a pena, que só nos empurram para o buraco, que nos sugam as boas energias e que em nada nos acrescentam. Se não servem para estarem sempre presentes, então, também não servem para estarem presentes em momento nenhum.
Há pessoas que nos desiludem e nos fazem duvidar se alguma vez foram verdadeiras, mas ensinam-nos, na mesma medida, que por mais que elas não tenham sido boas, nós fizemos a nossa parte. E nós iremos deitar a cabeça na almofada e dormir descansados, talvez tristes por algumas noites, mas em paz. Já a outra pessoa, cedo ou tarde vai sentir a consciência pesar e o arrependimento corroer até aos ossos. Mas depois, depois é tarde demais; tarde demais, as duas palavras mais amargas da língua portuguesa. Tarde demais voltam, para perceberem que ao contrário do que dizem, o tempo nem sempre é amigo, as amizades não são objetos que usas quando precisas e despejas no lixo quando não tem mais utilidade para ti e algumas portas ficam trancadas para sempre.



Letícia Brito

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

A estrada

Nunca senti que me encaixasse em grupinhos.
Nunca gostei de forçar simpatia ou de mostrar os dentes em excesso só para agradar.
E acho que num mundo descartável, onde as pessoas se assemelham muito a fotocopiadoras, sempre me senti bem por saber que não era igual. Não que me sinta diferente ou superior aos outros, mas nunca precisei mudar o meu eu para cativar quem quer que fosse.
Nos últimos anos, foram mais as pessoas que foram saindo porta fora da minha vida, do que aquelas que entraram. De certo modo, dei por mim a perguntar-me, mas qual é o meu problema afinal?
Mas nunca existiu um problema, apenas me mantive fiel a mim e aos meus princípios. Continuei a acreditar nos meus sonhos e a investir nos meus projetos, ainda que por inúmeras vezes tenha chorado sozinha, desse choro brotou a pessoa que hoje sou.
Não há nada mais bonito do que o amor por nós mesmos!
É como uma religião e deveria ser praticado por todos, sem excepção.
Respeitares-te a ti, antes de respeitar os outros, torna bem mais fácil o processo de respeitar o próximo.
Não precisas de mudar a cor do cabelo, pensar de forma diferente, vestir roupas de marca, ou ouvir determinada música só porque os teus amigos ouvem e acham porreiro.
Tu precisas de acreditar em ti, de cortares o cabelo ao teu jeito e de pensares como um puto de quinze anos ou como um velhote de setenta, o importante é que penses por ti, que escolhas o teu caminho sem intromissão de terceiros, que estejas ciente de que a estrada é lixada na maioria das vezes, mas vale a pena. Não precisas de seguir por atalhos, ou fazer desvios para chegares mais rápido ao teu destino. Tu precisas de vestir as roupas com que te sentes confortável e ouvir blues ou jazz se for a tua vontade. Não precisas fingir que gostas de rock ou aprender a dançar kizomba para convenceres os outros de que até és interessante. Porque tu és bom assim, exatamente como és, como pensas e como sonhas!
Quase todos crescemos com a ideia de que precisamos falar baixo, comer de boca fechada, sorrir para toda a gente e ter um lado inegavelmente perfeito, mas raios me partam, se crescer assim não é um erro!
Tu podes ser o que quiseres, podes perseguir os teus sonhos, e podes cair se fizer parte da trajectória. Podes e deves cair! E não tens que mudar quem és para agradar aos teus amigos ou à sociedade!
Se há alguém na tua vida que precise do máximo respeito, esse alguém és tu!
Então quem é que quer saber, se tiras nota dez a matemática ou se és o melhor escritor do mundo? O importante é o que sentes, se escrever te dá mais prazer do que uma licenciatura em medicina, então escreve. Se a música te inspira mais do que qualquer ciência, então canta, dança, segue o ritmo do teu sonho!
Molda-te a quem te rodeia, mas não mudes! O mundo precisa de ti espontâneo, genuíno, real. O mundo está farto de cópias e de pessoas que esquecem quem são para poderem fazer parte de grupos.
Eu nunca gostei de grupos. E sempre me entendi bem com a minha própria companhia.
Nunca tive dezenas de amigos. E nunca deixei de escrever ou de lutar apenas porque os meus amigos subestimaram o meu sonho e aquilo que sou.
Sou hoje o fruto de um caminho que não escolhi percorrer, mas que ainda assim me levou ao sítio onde pertenço. O lugar onde as estrelas brilham sempre e os sonhos nunca dormem. Deixei-me morrer tantas vezes por medo de enfrentar a estrada, porém, entre tropeços e soluços, a estrada remota levou-me ao lugar onde finalmente pude nascer.
Letícia Brito
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