quarta-feira, 27 de abril de 2016

João Nuno Jerónimo, o autor do romance SNU

João Nuno Jerónimo
João Nuno Jerónimo, nasceu no ano em que ruiu pela mão do homem livre o Muro de Berlim. Natural de Póvoa Rio Moinhos, freguesia do interior do país que sucessivos governos têm esquecido, e autor do romance SNU.

✍ Como te iniciaste na escrita?
A minha relação com o mundo das letras tem dois responsáveis, se é que se pode pensar assim. O meu pai, já o disse em público, porque um dos castigos que a mim e aos meus irmãos atribuiu durante a adolescência foi fazer cópias dos manuais escolares. Mas como parece evidente não bastam exercícios destes para começar a escrevinhar, caso contrário os meus irmãos também seriam hoje autores. Para escrever é preciso desassossego com alguma coisa que nos rodeia e eu nunca fui sossegado com o que me incomoda, com o que me intriga. Portanto, se quiseres, o desassossego assume a quota-parte da responsabilidade.

✍ Ficcionas aquilo que escreves ou os teus escritos tem também conotação pessoal?
Na escrita há zonas de conforto, praias. Quem escreve sabe até onde pode ir porque a limitação pertence-nos enquanto homens. Isto é, há uma certa tentação de escrever sobre o que se conhece e de não ultrapassar a barreira — normalmente os autores em início de percurso atiram-se aos sentimentos vividos à flor da pele, depois a tendência vai resfriando e dá lugar, tem de dar lugar, a outras praias menos meigas. Nós escrevemos sobretudo a propósito do que acreditamos dominar, mas superar o obstáculo é o melhor contributo para a literatura. A ficção anda de mão dada com o cunho pessoal.

✍ O que é que a escrita mudou em ti, enquanto pessoa?
Parece redundante dizê-lo mas a escrita mudou a forma como escrevo e eu vejo isso como enriquecimento pessoal. Bebemos água para saciar a sede, são precisas palavras para matar a nossa secura literária. De resto nada mudou, tudo se encontra na devida posição.


✍ O feedback é positivo? Como encaras as criticas?
Os números da editora dizem que a aceitação do SNU — e apenas me refiro ao que está editado — é positiva. Mas associar vendas a qualidade é um grandíssimo erro. Eu posso ao mesmo tempo vender muito e ser um autor medíocre e posso vender praticamente nada e ser um autor sublime. Para teres uma ideia, e cito o padre José Tolentino Mendonça, uma das mais geniais escritoras da nossa língua não tinha dinheiro para pagar o mais modesto T1 que estivesse disponível em Campo de Ourique. Nem adianta falar de royalties direitos de autor — porque tal, principalmente em Portugal, soa a prostituição. Recebo críticas construtivas que anoto para melhorar e se isso significar que o feedback é também positivo, então é.
 
✍ Quais os temas que gostas de abordar quando escreves?
Escrevo o que me desassossega. Esgrimo uma luta constante com tudo o que me perturba e isto talvez nunca acabe. Tantas vezes o óbvio me fascina mais do que o abstracto. Gosto de agarrar nas pessoas e, respeitando de grosso modo os seus padrões, colocá-las à mercê de uma criatividade pouco fértil e sem maquilhagens. Vejamos, um dos personagens do SNU é o retrato fiel de um curdo que conheci na Hungria. Da minha imaginação para a folha ele apenas se tornou professor de inglês. O mais importante mantive — o soldado pela liberdade e o humor refinado.

✍ Tens hábitos de leitura? Consideras importante ler para escrever bem?
É escritor quem lê, quem sente a textura e o cheiro do papel dos livros. Então, leio mais do que escrevo dada a importância que o hábito tem na nossa vida. Mas abomino corresponder a escrita a exigências e a lapsos temporais — é preciso tempo para amadurecer um texto. Não te espantes se disser que admiro autores que publicam três livros por ano.

✍ Que livros recomendarias?
Não devia haver uma lista de livros cuja obrigação de leitura assente num plano estabelecido por outrem. Há livros e livros há e espaços entre estantes onde cabe o meu e o teu. Todos têm cabido mais ou menos bem nos objectivos das editoras — umas porque esmifram os autores e outras porque neles vêem, de facto, uma réstia de esperança literária. Perguntas-me que livros recomendaria, deduzo que a alguém perdido, e a isso respondo todos à excepção dos meus.

SNU
✍ Já tens obras publicadas. O que gostarias de partilhar sobre elas?
Escrevi, até à data, uma mão cheia daquilo que podia ter acabado em livros não fosse achá-los péssimos. Dos cinco, está editado um — que me arrependi no instante seguinte ter publicado — e dois outros que esperam pelo tempo como quem espera sentado pelo amante numa noite de verão. Cabe-nos também a tarefa de sermos crivos de nós próprios. O SNU é uma espécie de grito contra a injustiça e a favor da liberdade.

✍ Estás a preparar a tua próxima obra. Quais as tuas perspetivas? O que vais abordar?
Trabalhei ininterruptos dezasseis meses num romance que talvez seja publicado entretanto. Estou agora a braços com um conto infantil que vou escrevendo na medida do possível e que o Matheus Reis, que conheci no Rio de Janeiro há quase um ano, ilustrará habilmente.

✍ Achas que os jovens atribuem o devido valor à escrita e à leitura?
Falar de jovens no geral, como de resto de outras faixas etárias, é porventura relativizar. Há-os, pois, que atribuem o devido valor à escrita e à leitura. Mas como se troca por miúdos devido valor? Por exemplo, Steinbeck entendeu que pela grossura da camada de pó que cobre a lombada dos livros de uma biblioteca pública pode medir-se a cultura de um povoe não me parece ter sido tiro ao lado. Volto a José Tolentino Mendonça quando escreveu que este país não é para escritores e a réplica bastará para percebermos quão humilhados estamos.

✍ Além da escrita, que outras paixões nutres, que te completam enquanto pessoa?
Tenho especial predilecção pelo mundo, pelas pessoas, por aviões.

✍ Que mensagem gostarias de passar aos teus seguidores?
Que não se esqueçam de viver. A incerteza dos dias compromete as nossas escolhas, porém é preciso respirar.

✍ Quais os teus objetivos enquanto escritor?
Que haja um leitor que me queira ler.

✍ O que dizem os teus olhos?
A pergunta devia ser antes o que dizem os teus dedos. Mas igualmente para ela não teria resposta porque olhos que vêem e dedos que escrevem não falam.

 

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